Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O que é que não ganhei? O prémio de Melhor Mãe

Crónica de 22 / 09 / 2016

Para não passar a ideia que sou apenas alguém cheio de mim própria, aqui fica a verdade: não, não sou a melhor mãe do mundo.

Ainda hoje, pedi desculpa à minha filha por, depois de vários dias sem dormir, com muita coisa na cabeça, ter gritado com ela, por ela ter gritado comigo.

"Se eu não posso gitar contigo puque é que tu podes gitar comigo?" disse-me ela.

"Porque sou tua mãe!" Respondi, não satisfeita com a minha resposta.

Fui correr. Fui pensar. Ela tem razão: eu não posso ser a pessoa que não quero que ela seja. E pedi-lhe desculpa quando voltei.

Ó culpa malvada que persegues estes seres humanos bem intencionados chamados "mães!"

Eu então, sou a árvore da maçã da culpa, a origem, a fonte, onde a Eva vai sempre parar e trincar uma beca. (Como todos sabemos, maçãs e culpas são cenas da Eva e não do Adão)

Aqui não há nada perfeito, apenas muita tentativa de ser boa, boa que chegue! Sou uma mãe separada. Filha de pais separados. Eles separaram-se com 18 e 23 anos, respectivamente. Quando eu nasci eram 2 gaiatos de 17 e 22.

Naquela altura não havia grupos de facebook, manuais de boa parentalidade, consciência, mindfulness e escolas para se ser bom pai ou mãe. Naquela altura, e antes disso, era-se pai. era-se mãe. Separavas-te, ias à tua vida - mentalmente falando - e os filhos eram seres que cresciam ao teu lado.

Não sei em que momento apareceu esta erva daninha da parentalidade. Esta ideia, que só aguça a culpa, de que até o tom de voz pode e deve ser medido ao milímetro para ter o impacto perfeito nos filhos perfeitos. De que é possível nos monitorarmos até ao mínimo pintelho (pode dizer-se esta palavra online?!) e obviamente atribuirmos-nos as respectivas vergastadas em caso de incumprimento (e se não formos nós, não faz mal: há sempre alguém online atento à polícia dos bons costumes e da boa parentalidade!)

Mas eu não preciso da polícia: eu, cheia dos meus próprios fantasmas, a transbordar de sentimentos difíceis e exigentes desde que fui mãe, continuo a ser a minha própria polícia. A minha própria erva daninha.

Por isso aqui não há folhos, laçarotes, nem roupas sem nódoas. Aqui os sorrisos dividem a blogosfera com as lágrimas. Com o esforço de tentar ser boa, nunca perfeita.

Aqui há aquilo que é a minha experiência pessoal, a experiência de alguém que cresceu antes da ideia de que sequer se podia ser pai ou mãe perfeito. De alguém que cresceu com fantasmas, e guardou, bem guardados, uns quantos de colecção até hoje.

Como blogger? Provavelmente nunca serei patrocinada por uma marca de roupa pipi. Mas vai-se a ver e tenho a sorte de ser patrocinada por uma boa marca de vinho :)

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