Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O que me aconteceu, a mim, com a Clara na escola?

Crónica de 26 / 09 / 2016

Hoje foi o primeiro dia oficial de escola.

Qual noiva, acordei nervosa, mais nervosa do que o tempo que tinha pela frente: tinha muito!

Chegámos à escola e a educadora, uma pessoa de quem já sou fã até porque como já me segue aqui "percebe-me", disse-me: "aproveite para descansar! Deixe-a aqui a dormir. Se ela não conseguir, eu ligo para si."

Ok, pensei. O que pode correr mal?

Vim para casa. Sem choros nem lágrimas. Só um frenesim de finalmente ter tempo para ouvir os meus próprios pensamentos.

Lavei roupa. Apanhei roupa. Dobrei roupa. Limpei pó. Aspirei. Lavei o chão. Sacudi as almofadas. Fiz as camas de lavado. Fiz sopa.

O frenesim era quase absurdo. Mas eu queria despachar estas tarefas que adiava há 2 semanas antes de a ir buscar. Sim, porque entretanto eu tinha decidido que a pressa não ia ser ditada pelo meu cansaço: ia ser lento, como o meu tempo que me vai levar a saber estar sozinha.

Fui busca-la e, quando me viu, abraçou-me. Passaram-se 5 minutos e estes chegaram para matar saudades e decidir que ia descansar com os amigos.

Voltei para casa, de alguma forma aliviada: eu precisava de recuperar de todo o frenesim. E perceber o que me estava a acontecer.

Fiz mais umas tarefas e, finalmente sentei-me ao computador. Nervosa, ansiosa... porquê???

Porque não estou habituada a não ter de estar atenta a ela. A não estar em alerta. A não ter todas as desculpas para... não olhar para mim...

Nestes quase 3 anos, fechei a minha empresa, fiquei desempregada, separei-me, afastei-me de muitos amigos...

Mas o que interessava? Fazer almoço e jantar. Lavar a roupa e dar banho. Contar histórias e amar.

Chorar? Não posso!
Atirar a toalha ao chão? Não devo!
Pedir um abraço? A ela, claro! Sempre! Mas sem que esse exija o afecto que não é ela que tem de me dar...

Tem sido um vício. Um vício que, como qualquer outro, é difícil de largar: o vício de não pensar no que me está a acontecer a mim.

Casa limpa. Coisas mais ou menos em ordem. Consciência de que andas a adiar a vida como o garfield adia acordar...

Fui salva pelo gongo: a Clara acordou a chorar e a educadora ligou-me para a ir buscar.

Mas não me safo de voltar à questão: e agora Patrícia? É agora que vais ter tomates de voltar a olhar para ti?

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