Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Dessa doença má, chamada amor (só ataca homens)

Crónica de 07 / 10 / 2016

De uma forma geral, eu diria que sou uma pessoa lamechas.

Adoro beijos, abraços, ronha, enroscanço e outras formas fisicas de amor.

Até ser mãe, não era das pessoas que mais dava voz a estes afectos: dizer "eu gosto de ti" não era meu hábito.

Mas se guardei algo dos livros que li sobre maternidade foi que

devemos sempre dizer aos nossos filhos que gostamos deles. Todos os dias relembra-los que os adoramos. Todas as noites dizer que os amamos. É assim que crescem seguros si.

Isto ficou-me sempre a ressoar: se faz bem às crianças, faz bem aos adultos, pensei. Porque, às vezes, o erro é não sermos mais crianças.

E comecei a dizer às pessoas que gostava delas. Que os meus olhos brilhavam quando as via. E que estava muito feliz por estar com elas.

No que toca a mulheres, é na boa. As amigas, a família, a educadora da minha filha, as vizinhas ninguém estranha! As mulheres não estranham que se traduzam sentimentos de afecto em palavras. (E acho que nenhuma delas pensou que eu estava maluca...)

Os homens? Disse essa mesma junção de palavras "gosto de ti, rapaz" a um amigo e a outro, que não via há 12 anos disse "os meus olhos até brilham de estar a falar contigo!"

Quer um quer outro (coincidentemente ambas as vezes foi ao telefone) fizeram um silêncio estranho... aquele silêncio de quem está a tentar perceber se pode apanhar sarna ao telefone ou tem de desligar a correr.

Será que os homens acham que dizer "eu gosto de ti" significa "quero casar contigo e ter uma gaveta de peúgas a meias? ou que já criámos uma conta de facebook conjunta com fotos dos 2 desde que nascemos? Ou acham só mesmo que é uma doença contagiosa que dá uma coceira desgraçada da qual é melhor fugir?!

Não sei. Mas sei que há algo no silêncio e na gestão dos afectos dos homens que os leva a guardar as palavras, às vezes também os gestos, e a viverem, talvez, num mundo onde é feio os homens terem emoções.

Não sei qual é o caso mas parece-me triste, parece-me triste que o amor, que todos sabemos ser tão importante dar a uma criança para que ela se torne num bom adulto, seja um grande tabu entre adultos.

É triste mas pode ser útil: a próxima vez que o ministro das finanças me enviar uma carta a dizer que tenho de pagar não sei o quê, vou dizer-lhe que gosto muito dele a ver se também dá de frosques.

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