Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O pecado de ser feliz.

Crónica de 08 / 11 / 2016

Começou há umas semanas. Esta sensação de que é complicado dizer-se "eu? eu estou bem!"

Digamos que eu sou um alvo muito fácil: eu sou impulsiva. sou pouco perfeccionista. sou boémia. Eu sou tudo aquilo que me faz ser alguém que podia sempre fazer melhor.

Tenho na minha avó a pessoa oposta: se estiver chateada, até vai dizer que está a chover, mesmo que não esteja, só para dizer que obviamente as coisas não são o que deviam ser.

Eu? Eu não sou assim. E cada vez mais. Cada vez mais eu estou bem com as coisas até porque não estar implica gastar uma energia que me tira deste estado: o estado onde "tasse bem!"

Tenho uma amiga que sempre disse que o grande problema das mulheres portuguesas é termos uma educação judaico-cristã no código genético onde a culpa, a sensação de que podia fazer melhor, de que não posso só ser feliz à minha maneira, é-nos impresso no sistema pelos antepassados pré-históricos.

Aliás, se pensarmos um bocado, em Portugal nunca ninguém te diz: "epá eu estou mega feliz! e tu?" Quer dizer não se passa nada de mais e a minha vida é mediana mas, ainda assim, sou super feliz!"

Não. Cá as pessoas estão
"Bem." "Vai-se andando." "Haja saudinha!" "Tudo a andar..."

Não. Ser feliz é pecado. Ser feliz é só para os outros, aqueles a quem a vida corre terrivelmente bem, do género de dar na TV e tal. Nós, os outros, o povo mediano, só pode ir andando.

E eu começo a achar que é mesmo pecado ser feliz.

Até porque esta sensação, que se tem repetido e para a qual me tornei mais atenta, tem-me dado razão.

Conforme vou prestando atenção, uma vez e outra, por motivos pessoais ou profissionais ou outros, as pessoas dizem-me que eu não devia estar bem com uma situação.

"Isto pode ser melhorado." "Aquilo pode ser diferente." Tu não tens tempo."

Tento sempre dizer que esta é a visão das pessoas sobre mim. Porque eu, EU? Eu estou bem! Claro que podia mudar, podemos todos!

Mas eu tenho esta tendência a pecar na felicidade. Estou bem com o que está mal. Estou bem com o que está bem.

Tenho esta tendência a estar bem onde estou. Como estou. E comigo.

E este tema do pecado da felicidade não seria mais que uma história minha se, há umas semanas, não estivesse eu num grupo de trabalho de uma dezena de adultos quando se faz luz:

o que a maioria tinha em comum, quando pensava no que lhes assombrava os sonhos, era memórias de um passado onde não puderam assumir-se felizes."

"Tiveste um 4? Podia ser um 5!
"Foste a melhor? Não fizeste mais que a tua obrigação!
"Não mexas se não partes!"
"Tu estragas sempre!"

Partilho convosco a minha vida em pecado por isto: para que possamos todos permitir um pouco mais os nossos filhos viver em pecado.

Vai-se a ver e até se tornam adultos verdadeiramente felizes <3

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