Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

“Sou feliz só por preguiça."

Crónica de 16 / 11 / 2016

“Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença” Mia Couto

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.

– Levanta, ó dono das preguiças. É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina.

Eu respondo: -Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos.

-Conversa de malandro…

– Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver…

Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.

– Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher…

– Mulher, eu?

– Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.

– Que quer vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir. Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça.

Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:

– Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.

– A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não Deus…

Excerto do livro “Mar Me Quer“, de Mia Couto

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