Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O cancro é um filho da puta

Crónica de 23 / 11 / 2016

O cancro é um filho da puta. Aqui já o posso dizer que ninguém censura.

O cancro é aquele filho da puta que te deixa sem saber se te mata ou não, mas com a espada na cabeça.

O cancro é aquele filho da puta que, provavelmente te amputará, parcial ou totalmente de partes de ti.

O cancro é aquele filho da puta que, quer te mate ou não, te transformará, inchará, deixará careca, fará vómitos, cair as unhas e umas quantas outras merdas.

O cancro é aquele filho da puta que te deixa marcas para sempre, faça contigo o que fizer.

Ir ao IPO de Lisboa é levar um soco na boca. Fui visitar o meu avô. Mas já fui visitar a minha avó, que continua cá, depois de 2 operações. Já visitei uma amiga, de 20 anos, que não continua cá; outro amigo de 30 que também não... Não fui visitar mas estiveram cá amigas, conhecidos, amigos e familiares de outros.

O cancro é aquele filho da puta que não faz diferença de quem tu és. Rico. Pobre. Novo ou Velho. Criança ou não...

Já trabalhei, inclusive, no IPO de Coimbra. Devia, tal como Auschwitz ter um aviso antes da visita: não coma. para não visitar.

Velhotes que já eram abandonados ainda mais. Mulheres gastas pela doença, em sofrimento. Crianças que não sabem nem percebem o que se está a passar e tentam encontrar algo colorido no meio das batas brancas.

Sim, o cancro é aquele filho da puta que trata mal toda a gente. Mesmo a quem salva.

Escrevo isto para agradecer a todos os médicos, enfermeiros, auxiliares e qualquer pessoa que aqui trabalhe: OBRIGADA.

Não é para qualquer um. Especialmente se usas as batas com bonecos. Oh as batas com bonecos... aquelas batas que querem transformar o feio em menos feio, o horrível em menos horrível... as batas da oncologia pediátrica.

Quero agradecer a todos, em nome de todas as mães, mulheres, filhas, pessoas, a todos sem distinção.

Imagino que chorem. Imagino que exasperem entre o que é um trabalho, com horário e picar do ponto, e uma profissão que dilacera a alma.

Imagino que sofram. Mas talvez o vosso sorriso poupe algumas lágrimas ao mundo.

Já que o vosso trabalho poupa milhares.

Obrigada

Na esperança que, para filho da puta, filho da puta e meia.

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