Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2017

O que tem em comum um obstetra e um feminista?

Crónica de 19 / 12 / 2016

Antes da Clara nascer, tudo fazia sentido: aquela médica havia de se ter deslumbrado, tal como eu, por esta maravilha que era trazer um ser ao mundo.

E tudo fazia sentido por isto: tudo revolvia à volta da minha barriga.

Quando a Clara nasceu, sai criatura cá para fora, e fica tudo a adorar o menino jesus. Tudo menos a obstetra.... Ela continuava ali por baixo, dedicada a uma parte sofrida, lesionada e, certamente, menos interessante que o bebé lindo que havia acabado de sair.

Durante meses, anos talvez, esta discrepância não me fazia sentido: "mas como se pode dedicar uma vida às partes baixas que, especialmente naquele momento, são sangue e cocó e pontos e outras badalhoquices que tal? Que sentido faz isso?!"

Recentemente tenho encontrado alguma lógica, tenho-a encontrado enquanto me encontro como blogger também.

Eu não gosto de escrever sobre bebés, nem folhos e roupas e cenas para decorar bebés, não tenho o que escrever sobre relações, mas eu gosto de escrever sobre a mulher. A mulher que é mãe. Sobre mim.

Não escrevo sobre a mulher vs homem. Não escrevo sobre o bebé da mãe.

Escrevo sobre mim: os meus receios e forças. Alegrias e tristezas. Conquistas e insucessos.

Escrevo sobre ser mulher. E isso é ser feminista.

E assim, num abrir e fechar de olhos, percebi as opções de quem trabalha as partes baixas de uma mulher, no seu momento mais glorioso mas menos jeitoso: é uma escolha de trabalhar com a mulher, para o bem-estar da mulher.

Para o resto, existem outros médicos. Como existem outros bloggers.

(Que fique este registado como o momento de mais alta, praticamente louca, comparação profissional entre um blogger e outra profissão :p)

Mais Crónicas:

-->