Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Viajo para fugir ou para voar?

Crónica de 27 / 12 / 2016

Sou uma nómada. Já o disse várias vezes.
Sou uma nómada há tantos anos que já me esqueci porque o sou. Sou-o e pronto.

Não, não sou só uma rapariga que gosta de viajar.
Eu gosto de ter a mochila às costas. A casa na mochila. A vida em pouco espaço. Gosto de viver aqui e acolá. Gosto de não ter rotina.

Com o tempo repensei muitas vezes esta relação com a viagem. Gostarei mesmo de viajar ou gosto de fugir?

A verdade é que tudo começou sem opção, tudo começou com uma juventude itinerante de muita mudança de casa. E, por isso, houve o tempo que eu queria "assentar", ter casa, ter família.

E sou feliz na rotina. De alguma forma. Na rotina perco a ansiedade que me caracteriza. Mas perco-a e substituo-a por um mofo de alma. Um mofo de quem quer voltar à dita ansiedade.

Separar-me do pai da Clara trouxe-me tudo isto à tona: teria sido mais fácil, há 1 ano atrás, poder ir viver para Moçambique? teria sido o que eu queria?

Ser mãe obrigou-me a repensar tudo. A repensar-me. E não, não podes ir para longe só porque é mais fácil para ti. Não pode nunca ser essa a razão.

Até porque a idade me ensinou que há algo que vai sempre connosco, há algo que nunca deixamos para trás: o medo. O medo de não voltar a amar. O medo de ficarmos amargas. O medo...

Então hoje, à beira de mais uma viagem longa, posso dizer-vos: levo tudo comigo. Os medos, as lágrimas, as dúvidas. Elas são minhas, são parte de mim, da minha história. Já não as preciso deixar para trás, apenas aprender a viver com elas.

Mas às costas? Às costas levo pouca bagagem. Porque tudo o que importa tenho dentro de mim. E nos 18 kg que levo de mão dada comigo.

E, assim, sem mofo na alma, mostro à Clara que pode, enquanto quiser, ter o melhor dos dois mundos: tem toda a gente que ama no chão. Mas tem, dentro dela, asas para voar para onde quiser.

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