Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2017

Olá mãe, emigrei.

Crónica de 01 / 02 / 2017

No outro dia, enquanto falava com uma amiga, perguntei-lhe porque não me respondia. Ela disse: "estás-te a divertir tanto que acehi que não era preciso."

Eu já emigrei. Muitas vezes. Para vários sítios. As pessoas não fazem ideia do que é a vida de emigrante... Esta crónica é dedicada a todas as pessoas que emigraram.

Olá mãe, emigrei. Várias vezes até, para vários sítios. Sabes, eu era livre antes de ser mãe.

Ia para este e aquele país. À procura de um sonho, de um milagre ou de uma vida com que nunca tivesse sonhado.

Emigrei. Mas este é um lugar muito só.

Deixei tudo para trás, e lá atrás ficaram todas as memórias de uma vida construída.

E agora, aqui, basta mostrar uma palmeira para aí acharem que a vida são férias. Basta dizer que está sol ou há prédios altos para ninguém se lembrar de mim.

Fui mãe. Ser mãe torna tudo mais difícil... ser mãe é querer a melhor vida para os filhos não é?

É sim, mãe, tu sabes... só não sabes talvez que ainda mais solitário é o coração de uma mãe emigrante.

A mãe que não consegue explicar o que é pertencer a tantos sítios. Que não faz ideia como se gere a saudade ou se diz a uma criança que ela pertence a todos os cenários, especialmente aos onde não está.

Sou emigrante mãe, e perdi os amigos, perdi as referências. Mas não as memórias.

Passo-as aos meus filhos. Mas nunca nas lágrimas que choram de saudades às escondidas.

Sem nunca lhes dizer o que significa lutar por uma vida melhor.

Se tudo correr bem, nunca vão saber. Vão apenas pertencer a todo o lado. Vão apenas, com a força das minhas lágrimas, ter mais opções.

Sou emigrante mãe, e enquanto todos veem escolhas, eu vejo a impossibilidade de escolher tudo.

Eu Patrícia, não sou emigrante. Mas já fui, muitas vezes. E viajo muito com a minha filha.

E vejo que eu estou em todo o lado, mas os sítios de onde saio deixam de me ter.

Esta solidão só não é válida para as crianças. Essas continuam em todo o lado. Nem que seja por omissão.

Por isso dedico esta crónica a todas as famílias que emigraram: exijam sempre que todos vos tenham no coração. Sim, os milhões que lá deixaram.

A vossa coragem não pode ser esquecida. Pelos vossos filhos para começar. Por todos os filhos se tivermos sorte de fazer o que devemos.

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