Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Internar um filho é mau. No estrangeiro é péssimo. Depois dele defalecer nos teus braços, o teu pior pesadelo.

Crónica de 03 / 02 / 2017

Nos meus anos os amigos ofereceram-me uma massagem a que fui, feliz da vida.

A senhora dizia adivinhar o futuro e, conversa puxa conversa, fala da minha boa energia de como tudo vai dar certo e... para... e desata a chorar num pranto.

Exigi saber o que era de mau que me estava guardado no futuro mas percebi que não me ia dizer. O futuro, mesmo visto, não é contado.

Lembrei-me dela ontem, enquanto a minha filha me desvanecia nos braços num local onde, por força das circunstâncias, só poderia sair a pé, com ela ao colo, por uma estrada de areia com 35 graus.

Lembrei-me dela e, enquanto a minha mãe gritava para eu não me ir abaixo, e a minha filha olhava para mim, com as forças que lhe restavam, para perceber o que se passava de tão grave, pensei que não, não era justo, eu não aceitava aquele destino que ela tinha visto.

Lembrei-me dela desde manhã, quando a levei a um médico da aldeia e o obriguei a ausculta-la. Lembrei-me dela quando olhei para as costelas da minha filha e a vi a respirar mal. Lembrei-me dela quando achei que este podia ser o dia que me estava guardado pelas lágrimas dela.

Chorei muito, mas ainda não chorei tudo. Não há choro que chegue para chorar o momento que sentes que podes perder um filho. Essa visão negra que a maioria de nós é felizmente poupada é horrível.

E eu quis chorar. Para mostrar ao mundo, aos deuses, e a quem me pudesse ouvir, que não ia lutar... mas também não aceitava esse destino.

Aparece o carro do vizinho. Um barco de um amigo e um táxi lento em hora de ponta. Vivemos a 12 km da cidade, que custam 2 horas a fazer.

Fiz esse km desesperada, aos estados a minha filha para não desmaiar, a cantar, a gritar, apitar... fiz esses km quase a desistir da minha parte da luta...

Não sei porquê, senti, quando a pousei na cama do hospital, que agora sim ela estava entregue a Deus. Sim, os médicos também são deuses.

A Clara teve uma reacção alérgica respiratória elevadíssima que terá de ser vista se é dela ou foi reacção a algo.

Nós passamos a vida a acreditar na auto-suficiência. E ainda bem. Aliás, parte da minha estupida crença de ir a pé teve a ver com a minha necessidade de restaurar a minha falsa sensação de controlo.

No mundo, não controlamos nada. Excepto o que controlamos.

E os momentos que nos lembram que somos meros peões num jogo de alguém, fazem-te perceber que nada do que se passa ou te preocupa vale o que quer que for se a vida te tirar o verdadeiro tapete.

Enquanto a minha filha desfalecia, e eu chorava, lembrei-me que não tenho computador há 3 semanas apesar de me estarem sempre a dizer que está aranjado, que não tenho emprego há 3 anos e que choro cada vez que penso que tenho de conseguir encontrar maneira de sustentar a minha filha e sentir-me válida, e lembrei-me que, se isto fosse de facto um jogo, eu pagava tudo, e penhorava tudo mais, para continuar eu a sofrer e nunca ela.

Não vou deixar de viajar com ela. Mas o medo faz-nos lembrar que somos humanos.

E eu, não sei porquê, imagino a massagista a rir, porque a carta dela continua na mesa: nunca nos livramos do perigo. A minha filha corre perigo só porque está viva.

Não sei como concluir de forma bonita esta crónica. Ainda não chorei tudo. Não filtrei. Não sintetizei.

Talvez apenas saiba que me sinto mais humana que nunca. Porque ter medo nos lembra que somos humanos.

E medo de perder um filho lembra-te de algo superior a ser humano: ser mãe...

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