Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Selfless love

Crónica de 04 / 02 / 2017

Tenho uma piada que partilho diariamente com a educadora da Clara e que, diariamente nos faz rir:

numa próxima vida vou ter gatos!

Rimo-nos ambas porque, além de termos muito sentido de humor, sabemos que não é verdade. Mas que é verdade que ter filhos é viver com o coração nas mãos.

Bactéria. Infecção. Virose. Febre. Bactéria. Infecção. Virose. Febre.

E por aí fora. A tirar-nos o sono. E a troca-lo por cabelos brancos.

Eu acho que o primeiro ano de vida do primeiro filho é maravilhoso. Somos precisas! Somos indispensáveis! Somos a razão da sobrevivência daquele ser!

Depois passa o efeito das hormonas e instala-se o cansaço.

E este selfless love, ou amor desinteressado, torna-se mais exigente.

Percebo agora porque muitas mulheres têm vários filhos de rajada: sempre injectado de hormonas de mãe, o corpo humano esquece-se que de vez em quando também se devia amar a si. E continua ali, inebriado pelo selfless love.

Se paramos de procriar é que é mais difícil. A verdade é que a criança já não precisa de nós para sobreviver. E, a verdade é que precisamos de gostar de nós, precisamos de espaço para sermos nós e precisamos de aprender, permanentemente como se vive um amor incondicionalmente desinteressado.

Todas as noites que passamos sem dormir porque um filho está doente são noites que deixamos de dormir.

Todas as quedas, birras e brinquedos partidos são inputs não programados, altamente dispensáveis, mas que temos de saber gerir.

Todos os diagnósticos ou doenças são momentos que te fazem pensar "porra quem me dera que isto não acontecesse!"

Ser mãe é aprender constantemente a amar o outro.

Ser mãe é aprender constantemente a não nos amarmos a nós próprias. Pelo outro.

E sim, não é válido para mais ninguém. Nenhum marido ou namorado nos tira o sono com uma gripe.

Nenhum amigo ou amiga precisará dividir connosco uma cama minúscula de hospital.

Os filhos sim, fazem-nos dormir de pé. Não dormir. Chorar. Não comer. Gritar. Comer. Encher baloes ou maquilhar carrinhos.

Os filhos sim, fazem-nos olheiras e cansaço. Dão-nos preocupações e medos e receios. Fazem tudo o que não queremos e ainda assim ficamos ao lado deles.

Os filhos sim, ensinam-nos o que é o amor desinteressado, o amor incondicional e o amor que vem antes do amor próprio.

Os filhos ensinam-nos que na próxima vida viveríamos mais descansados se tivéssemos só gatos.

Mas felizmente estamos nesta.

Onde, cheias de sono, olheiras e preocupações, aprendemos, a custo, que amar também é sofrer. Pelo menos quando se trata de amar um filho.

A beleza deste amor é que, com um filho, aprendemos a viver bem com o sofrimento que ele nos causa.

O que me parece que não aconteceria com um gato.

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