Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2017

Quanto vale uma mãe?

Crónica de 07 / 02 / 2017

Viemos da consulta e fomos passear ao parque.

É um daqueles parques infantis onde, à tarde, se juntam magotes de crianças a fazerem tamanho ruído de felicidade que afastariam qualquer nuvem cinzenta que alguém carregasse.

(Talvez bastasse dizer um parque cheio de crianças pois estas afastam sempre as nuvens cinzentas.)

Era de manhã, por isso só lá estavam crianças que não iam à escola. Ora porque ainda eram muito novas ora porque não tinham escola nem casa para onde ir.

Todos, sem excepção, colaram os olhos em mim: os loiros de olhos azuis e as suas babás e os morenos descalços sem mãe nem babá.

Todos olharam para mim por uma razão: eu não pertencia ali.

As mães pertencem ao parque ao final da tarde, quando saem dos seus trabalhos importantes. Ou, no caso dos meninos sem mães, as mães não pertencem ao parque.

Em comum todos estranham a minha presença. A minha presença neste não horário de mãe.

Decidi entrar e avançar na mesma. Estava muito calor e ali havia sombra e pássaros e escorregas.

Foi andar de baloiço com a minha filha e todos os olhares continuaram em mim.

Discretamente, faço a análise da situação: quem toma conta dos filhos são pessoas eventualmente equipararas as empregadas de limpeza. Talvez até sejam as próprias empregadas de limpeza.

E é por isso que elas acham que eu não pertenço ali: eu, com a minha maquilhagem e vestido flutuante, devia estar num qualquer escritório com ar condicionado a teclar uma porcaria qualquer intelectual e importante ao computador.

Irónico não? Irónico que se fala tanto da maternidade mas quem é mãe na nossa vez fica na parte baixa da pirâmide, social e salarial.

Irónico que amamos os filhos mais do que é humanamente discritivel. Ainda assim, que cuida deles ou fica com eles, ainda que seja a própria mãe, é equiparada a alguém numa função desvalorizada.

Irónico não? Que achemos que estar sentada a mandar uma porra de e-mails que pode não fazer diferença nenhuma possa ter mais valor que empurrar um escorrega que traz toda a felicidade a uma criança.

Enquanto os olhares iam perdendo o ar de novidade, e eu conversava com as babás como se fosse uma delas e andava de baloiço como se fosse uma criança, uns, pelo menos, não perdiam a intensidade:

O das crianças. Com babá ou sem chinelos, loiros ou morenos, todos olhavam para mim com o mesmo brilho nos olhos:

Que fixe que é ter uma mãe que vem brincar ao parque contigo.

Naquilo a que chamamos o mundo capitalista, ser mãe ou fazer de mãe vale pouco. Dinheiro leia-se.

Felizmente existe outro mundo, o das crianças, onde se paga em sorrisos e gargalhadas.

Mais Crónicas:

-->