Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O medo de tu seres eu. E eu ser tu.

Crónica de 06 / 03 / 2017

Cruzei-me hoje com as minhas fotos de jovem. Sim, eu, tua mãe, já fui jovem.

Era uma jovem cheia de iniciativa. Poucos medos. Muito aventureira. Mudava de emprego quando me entediava. De país quando queria adrenalina.

Era romântica e acreditava na paixão. Acreditava que o amor ganha sempre. E por isso sempre me atirei da cabeça.

Cortava o cabelo e fazia permanentes e pintava de várias cores quando queria ver no espelho o que não conseguia mudar na minha vida.

Acreditava que podia tudo. Fazer tudo. Ir a todo o lado. Eu tinha sonhos e iria, com a minha garra, lutar por concretiza-los a todos.

Eu sei que ia. Eu sei que acreditava que ia. Vejo-o na minha cara. Na cara que tinha nestas fotos.

Arrepio-me a esta distancia se queres saber... O que se passou? Além de uma vida claro...

Ser mãe muda logo tudo. Mas não, não te posso culpa disso. Não foste tu que me fizeste adiar os meus sonhos, pelo contrario. Tens-me feito lembrar de todos.

Que deixei, algures, entretanto... Não sei se acredito no amor. Sei que não acredito na paixão, sei que não consigo gostar assim, sem pensar, sem pensar que sou mãe e que tenho de te proteger...

Sei que já não acredito em carreiras de sonho. Ou trabalhos. Ou que posso mudar de casa ou país ou cabelo. Esse também já não é o que era. Relembra-me todos os dias que já não sou jovem. Que agora tenho de pensar. E eu que sempre achei que pensava muito, agora sinto-me incapaz de pensar...

Olho para ti e quero que sonhes. Muito. Que queiras tudo. E que batalhes por isso. Que não baixes os braços. Que não te fiques por sentimentos de desilusão.

Olho para ti e tenho medo de querer que tu sejas eu. Que vivas o que não vivi.

Olho para ti e tenho medo de querer para ti o que deixei de querer para mim...

Sei e digo e que vou aceitar tudo o que quiseres ser.

Sei e vejo que os pais tendem a ter sempre a sua própria bitola. Não é linear que os pais deixem os filhos serem quem quiserem.

Será que os filhos podem deixar os pais serem quem quiserem?

Já sei! Vamos combinar uma coisa: eu não desisto de mim. E tu não desistes de ti.

E não desistes também de me mandar dar uma volta quando eu tiver medo de tu seres tu ok? Pior seria tu seres eu. Esse trabalho é meu.

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