Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Violência obstétrica: a história da Sara

Crónica de 28 / 03 / 2017

Há 8 anos atrás, tinha eu 19, nasceu o meu primeiro filho. Não estava preparada. Mental e fisicamente. Nas consultas de termo começou o medo. Um dos médicos envergonhou-me por ser mãe nova e depois disse num tom autoritário “deita-te ali!” e perguntei na minha ignorância “é para tirar a parte de baixo doutor?“ “Para fazeres asneiras tiraste não tiraste??”.

Ao examinar-me fez o chamado toque e sem sequer falar, fez, sei agora, o descolamento de membranas. Tinha 39 semanas. Doeu horrores e fiquei a sangrar. Sai de lá e chorei. De vergonha, de dor e de medo. Era tudo assustador.

No dia seguinte acordo e vejo o rolhão mucoso. Vou controlando as contrações e ainda estão espaçadas e sem dores. Ao fim do dia não tenho posição para estar e como mãe de primeira viagem e pouco experiente dirijo-me às urgências com medo de estar a prejudicar o bebé.
Sou chamada. O pai não pode entrar. “O que é que se passa?” “Acho que estou em trabalho de parto.” “Tire a roupa e deite-se. Tem 2 cms. É para ficar.” veio uma enfermeira com uma lâmina e rapou os pêlos. (Tomei banho e fiz a depilação em casa mas com a barriga à frente deve ter escapado algum!)

Fui para um quarto sozinha, o pai não foi autorizado a permanecer. Vesti a camisa de noite e colocaram-me as cintas. Não podia levantar ou mexer muito. Estive lá das 3h às 9h da manhã sensivelmente. Durante esse tempo 3 toques. “Tire as cuecas! E não volte a vestir!”. Mas estava bem. Sem grandes dores.

De manhã avisam o pai lá fora que vou para a sala de partos. A mim ninguém me disse nada. Levam-me e sem sequer me informarem, vejo um saco ao lado do saco do soro. Dizia “Pitocin”. Rapidamente começaram as dores, cada vez mais fortes. “Por favor deixem-me sentar!” “não pode!”.

Como uma solução fantástica é me oferecida a epidural. Ao aplicar o anestesista fica todo sujo do meu sangue. Passados trinta minutos não sinto nada. Nada. Nem sequer as pernas. Não consigo mexer as pernas. Chamo a enfermeira, aviso. Algo está mal.

“vou ajustar aqui.” O bebé começa a descer e eu sinto uma ligeira pressão. Chamo a enfermeira. “Passa-se alguma coisa!” a enfermeira tinha dito que demoraria mais uma hora dez minutos antes. Mandou o pai almoçar inclusive. Mas não. O Luís Pedro estava mesmo a espreitar. Corre, chama um enfermeiro. Corta-me sem me dizer nada. Não senti. Podiam ter-me cortado as pernas. Manda me puxar. Mas como? Não sinto nada, estou a puxar com todas as minhas forças mas não sei se o faço corretamente.

Então é quando me fazem a manobra de Kristeller. O enfermeiro enfia os cotovelos na minha barriga e diz “pai, ajuda!” estão os dois em cima da minha barriga. Senti-me sem ar. Parecia que os meus olhos iam saltar fora como nos desenhos animados. Senti pequenos vasos sanguíneos a rebentarem na minha cara.

Nasce o meu filho. Ele está bem e saudável. Mas eu estou toda pisada. Demoram meia hora a coser-me. 10 pontos por fora e outros tantos por dentro. Não sinto as minhas pernas durante 6 horas. Não consigo sentar-me sequer para pegar no meu filho. Choro no quarto e uma mãe conforta-me, nunca irei esquecer o gesto. Quero urinar e não consigo, a manobra provavelmente foi a causa. Nunca mais tive uma bexiga normal. Sou seguida até hoje em urologia.

Mas eu não sabia o que sei hoje. Hoje sei que eu posso recusar um procedimento e que tenho o direito de ser informada sobre tudo. Sei que o descolamento de membranas não é recomendado, nem a manobra de kristeller, nem estar deitada sem mexer, nem a episiotomia é indispensável. E que podia ter feito queixa do médico. Mas sei que é difícil. Sentimo-nos tão frágeis e cheias de medos…

Agora no segundo parto, há 8 meses, foi completamente diferente. Fui acompanhada por uma equipa humana e dedicada. Falei dos meus medos e atenderam os meus pedidos. A Maria nasceu também por parto vaginal mas num ambiente tranquilo. Sem drogas, sem manobras perigosas. Eu senti tudo. T-u-d-o.

E apenas foi necessário um pequeno corte que pouco senti mas a enfermeira informou que o teria de fazer porque achava que iria lacerar o períneo. Sentei-me quase imediatamente e cruzei as pernas!

Amamentei a minha filha e sorria de orelha a orelha. Não tinha dores e senti uma profunda admiração por aqueles profissionais. Fui na maca a sorrir para o internamento e todos os que se cruzaram comigo me deram os parabéns e estranharam eu estar tão bem disposta. É a diferença em sentir que fui ouvida, que me respeitaram. Senti-me empoderada. É esta a palavra. A mulher que dá à luz é divina e sagrada.

Não admitam que vos digam o contrário. Mãe é mãe. Nova, velha, gorda ou magra, branca ou negra. Todos temos mãe. Todos viemos do mesmo sítio. Quando sentirem que não estão a ser respeitadas lembrem isso ao profissional de saúde! 😉

Por: Sara Alves

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