Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Dos 2 para os 3: passar das birras à construção do mundo.

Crónica de 31 / 03 / 2017

Às vezes acho que tenho saudades das tuas birras, minha filha. Tenho saudades onde a tua reacção ao mundo era apenas irracional. Sabia-lo eu. E sabia-lo tu.

Agora que tens 3 anos, não reages mais irracionalmente. Agora tu analisas, pensas, perguntas. Agora tu percebeste que há uma lógica. E queres perceber qual é.

A primeira logica que percebeste é que as coisas nem sempre são como queremos... E eu fico com o coração apertado quando me perguntas porquê. Como te explico, agora que queres a lógica, que sim, que temos de aprender a sofrer?

Os 3 anos trazem o mundo, grande, enorme, e lógico. Os porquês. Os medos. A insegurança. Os 3 anos trouxeram-te a necessidade de perceber o puzzle da vida. Pudesse eu percebe-lo para to explicar...

É engraçada a ironia do desenvolvimento, e como pode deixar saudades os tempos onde choravas e esperneavas porque não podias comer chocolates ao pequeno-almoço. Mas esses eram os tempos que não pensavas no bom e no mau. No desejável e indesejável. Esse era o tempo que só pensavas no que querias. E que bom que era...

Agora não pensas só no que queres. Pensas no porquê de quereres. No porquê de ser assim. Sofres quando percebes que há lógicas maiores que tu. Ficas triste com medo do que pode o mundo dos maus guardar. Não havia maus até aqui. Havias apenas tu. E, nessa ingenuidade, tu não sofrias.

Há maus nos filmes. Há maus nas séries. Será que há maus no quarto antes de dormirmos? Aí te garanto quer não há, meu amor. (Pudesse eu garantir que não havia em mais lado nenhum...)

Todos os dias aprendes coisas novas. Ficas mais menina e menos bebé. Todos os dias tens noção do que ainda não sabes. E frustra-te esse abismo: essa distancia entre não saberes e puderes tudo.

Vens-me buscar? O que vamos fazer hoje?

Vejo em todas as tuas questões o medo do desconhecido. O medo de que, por um mero acaso que te ultrapassa, eu desaparecesse.

A mamã está sempre aqui! Eu volto sempre não volto?

Gostava de te dizer que nunca te vou falhar. Para acalmar esse teu coração com medo de perder o chão, mas cheio de vontade de ganhar asas e voar.

Não te posso dizer isso filhota. Eu falho também. E voltarei a falhar.

Mas, talvez, melhor que nunca te falhar é dizer-te que estarei sempre aqui. Para os voos e para as quedas. Para as risadas e para as lágrimas. Para as birras e para esse maravilhoso mundo novo.

Que tu ainda não sabes, mas eu já sei: ficará a teus pés. Assim que perceberes que isso que sentes é vontade de viver.

Vai. Vive. Vou lembrar-te sempre: serei sempre o teu chão. O teu colo. Estarei sempre aqui.

Mesmo que no escuro não me vejas. Eu estou sempre lá.

Como as estrelas no céu. Num dia de sol.

Vai e sê o sol. Estou aqui quando a noite cair.

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