Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O estranho caso de estar confortável com um filho

Crónica de 03 / 04 / 2017

fotografia: the love project. Sigam aqui e aqui

Olá, eu sou a Patrícia. Muitos de vocês já me conhecem, outros talvez nem tanto.

Tenho 38 anos, mas a caminhar rapidamente para os 39. Tenho uma filha de 3 anos e picos, a Clara. Estou desempregada. E separada há um ano e meio.

Não, nem sempre estive desempregada. aliás, há quase 4 anos atrás eu era uma rapariga solteira, empresária, que tinha uma vida em tudo diferente do que tenho agora: vivia sozinha. Tinha dinheiro. Empregada em casa. Andava sempre "arranjada" e de saltos altos. Ia a restaurantes e saia à noite. Era uma miúda gira, vá :)

Apesar de não ser evidente à primeira, tudo mudou, felizmente, para melhor.

As separações são difíceis, devem ser feitas com o coração bem assente no chão. E os olhos postos no horizonte. Como costumo dizer quando alguém desabafa comigo: "o mais importante é que tenhas a certeza. Porque vai piorar antes de melhorar."

Sim, piora. estar sozinha com uma filha, sem ajuda nas tarefas de casa, no choro, nas molas do estendal, no aspirador, no frango para descongelar ou nas olimpíadas de apanhar brinquedos nem sempre é pera doce. Somas as noites sem dormir. As febres inesperadas. A tosse noturna. E sabes que só mesmo o amor de mãe encontra beleza e força em tudo isto.

O tempo passa. E tudo melhora.

Os filhos passam a dormir mais. As dores são identificadas em palavras. Os brinquedos são apanhados a meias. Sim, tudo melhora com o tempo, até que ficas, estranhamente confortável com o facto de teres um filho.

Até que chega aquele dia. O dia em que mudas as roupas de estação, ou guardas as roupas que já não servem. As roupas que, um dia, guardaste para os irmãos que a tua filha ainda pudesse ter.

Sim, eu sou uma romantica. E apesar de ser maria-rapaz, incapaz de usar saias (por não das saber usar), pouco crente naquilo que chamam normalmente casamento, eu sempre gostei da ideia de ter muitos filhos, que usavam roupa esvoaçante, num jardim enquanto eu e o homem da minha vida nos abraçávamos a ver a vida que o nosso amor tinha ganho.

Por isso, mesmo depois de separada, guardei estas roupas. Aquelas roupas minúsculas, delicadas, que compramos sempre a mais, que duram sempre de menos: as roupas dos recém-nascidos.

Nunca mais se guarda tanta roupa porque a partir de uma certa idade a roupa suja-se. Rasga-se. A partir de uma certa idade a roupa ganha vida própria, a vida de um filho quer brinca.

Mas não a dos recém-nascidos: essa lembrar-nos-á para sempre aqueles dias únicos, de nostalgia e alegria extrema. De lágrimas, sono e felicidade transbordante.

E durante 3 anos eu olhava para esta roupa e pensava nas fraldas que ainda mudaria. Nas noites que ainda passaria sem dormir. E no amor que sentiria, no futuro, mesmo que visto deste presente, onde não há sequer pai para esta criança que ainda não nasceu.

Até que chega esse dia, o dia que ficas confortável. O dia que olhas para a roupa e pensas que finalmente dormes a noite toda. Que vês os fofos e babygrows e te recordas que a tua filha já te ajuda a apanhar brinquedos. E por a mesa.

Chega esse dia, onde se dá o estranho caso de pensares que outros sonhos podes ter para além desses. Porque, assim de repente, não te apetecem mais noites de coração nas mãos com febres inexplicáveis.

Pelo sim pelo não, tenho uma caixa de roupa de recém-nascido guardada. Foi assim que a Clara passou o inverno com um casaco que foi meu quando eu era criança: foi porque os sonhos não morrem, ficam apenas guardados, quais roupas de criança.

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