Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Algodão, linho ou toalha da cozinha?

Crónica de 11 / 04 / 2017

Vou-vos ser sincera: parte de mim gostava de ser a pessoa mais normal do mundo. Casar, ter filhos. Um trabalho regular. Cozinhar o jantar, fazer compras para o mês. Ir de férias em Agosto.

Parte de mim gostava de ser assim. E feliz.

Acontece apenas que sou tudo menos alguém que consiga ser feliz com um excesso de previsibilidade.

Há tecidos delicados. Eu não sou um. Sou bicho do mato. Sou toalha da cozinha que se lava a qualquer temperatura. Que se amassa. Que se enche de nódoas. Que mete a mochila às costas. Que muda de casa ou de país.

Às vezes até demais. Como uma máquina em grande centrifugação. Às vezes queria que a máquina parasse um pouco. Gostava de ser um linho. Um vestido de baptizado de bebé.

Às vezes gostava de não ter de andar sempre em alta centrifugação.

Digo-me, neste dias, que não sou eu que escolho a vida que tenho, é ela que me vai escolhendo. Que me vai empurrando para aqui ou para ali, que me vai fazendo abrir caminho a quem queira mudar de vida, que me faz lembrar, permanentemente, que nada na vida o é. Nada na vida é permanente.

E agora, atirada para mais um rebuliço da vida só consigo pensar o esforço que deve ser preciso para a vida não mudar: a minha, com um pequeno espirro muda de local, lugar, pessoas, temperatura e cor.

Como se mantém a vida igual durante toda uma vida?

Sim, há dias que gostava de ser linho. Feliz arrumada numa gaveta. Adorada mas pouco usada.

Há outros que gostava apenas de não ter de ir tantas vezes à máquina, à centrifugação.

Felizmente, na maioria, consigo pensar: bora lá para mais uma voltinha.

Sem medo. Sem receio. Com fé que a vida se encarregará de não me fazer dar mais voltas que as necessárias. Mas que nunca me privará de saber de que fibra sou feita:

aguento melhor os amassos da vida do que decorar gavetas.

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