Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

A mentira da maternidade

Crónica de 26 / 04 / 2017

Hoje fui passear numa zona onde costumava ir quando trabalhava fora de casa. Os últimos tempos foram passados grávida. Muito grávida.

Um dos meus sócios, homem com 5 filhos, costumava dizer-me que eu era a menos grávida de todas as grávidas que ele tinha conhecido. E conhecia umas quantas, para além das suas 5.

Sim, eu nunca me deslumbrei pela gravidez: foram 9 meses de saltos altos, unhas pintadas e muita maquilhagem. 9 meses de ginásio, natação e festas. 9 meses de trabalho árduo. 9 meses a fazer exatamente a minha metade das tarefas domesticas.

Foram 9 meses a acreditar que eram apenas 9 meses: iguais aos 9 que os antecederam e iguais aos 9 que lhe seguiriam.

Não ligava a roupa de bebé. Nem a quartos de bebé. Nem a porra nenhuma de bebé: quando ela chegasse, logo se via. Por hora, eu tinha coisas para fazer!

3 anos e picos depois, começo a perceber que andei enganada 9 meses. E, eventualmente, terá sido por isso que a maternidade, aquela que acontece depois destes 9 meses, foi para mim como um tsunami, um renascimento, uma reencarnação, um fim, um principio...

A verdade é que a gravidez é uma espécie de mentira. Ou talvez toda a maternidade seja.

A gravidez dá-te a ilusão que a maternidade é só 1 + 1 = 2, que nada muda. O início de vida de um bebé dá-te a ilusão que aquilo é passageiro, que rapidamente passa.

E, de mentira em mentira, vais empurrando a maternidade com a barriga, com a ideia de que o pior já passou.

Mas hoje percebo que a maior mentira foi a que me contei a vida toda: foi a falsa ideia de que o amor não nos muda.

As birras vão passar. A febre vai baixar. Vai deixar de gatinhar. De querer colo. De comer comida passada. Tudo vai passar. Excepto excepto uma coisa: a pessoa em quem te transformaste.

Nessa mentira podes continuar a acreditar quanto tempo quiseres. Que um dia voltas a ser a mesma pessoa. Que tudo é passageiro.

Sim, tudo é passageiro. Excepto o teu coração: esse não voltará a deixar decbater fora de ti.

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