Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

No tempo em que as emoções falam

Crónica de 09 / 05 / 2017

(Andei durante vários meses a "chatear" a autora e psicóloga de crianças Rita Castanheira Alves para escrever um texto para nós sobre a gestão das emoções. Os seus livros, da booksmile, são dos meus preferidos mas também das crianças quando levei para a escola da minha filha. Aqui fica um texto único e exclusivo. Obrigada por tudo Rita <3)

O João costuma estar com regularidade comigo, brincamos juntos, conversamos e tentamos resolver os problemas dele. Gosta de contar as brincadeiras e tarefas divertidas que fez na escola e também em casa e, especialmente, onde se saiu bem e quando as coisas lhe correm bem.

Demorou muito tempo a conseguir falar das experiências negativas e das situações em sente que falha ou sofre. Fingia que não se passava nada e acreditava que se não falasse das coisas más, elas não provocavam sofrimento.

A verdade é que sofria na mesma, muitas vezes mascarando o que sentia com zanga ou às vezes com ansiedade, roendo as unhas, doendo a barriga ou tratando mal alguém. Ao longo dos nossos encontros, o João começa a perceber que existem emoções. Muitas e variadas e que não há emoções certas e erradas, boas ou más, todas são necessárias e têm uma razão de ser. Sim, é verdade que algumas custam mais do que outras, mas as que são boas, não vivem sem as que não sabem bem.

Ao início, o João não sabe onde sente as emoções. Onde sinto? Mas pode sentir-se no pescoço? Posso sentir nos joelhos? Pensava que se sentia tudo na cabeça e no coração. Não sabia que as emoções se expressavam em sensações corporais, em sinais que o nosso corpo nos envia como alarmes para nos dizer que é tempo de parar, identificar, perceber o que se passa e depois agir.

Com o tempo, começa a falar com o corpo: “foi uma tristeza, que me pôs os braços muito pesados”, “senti-me tão feliz que os pés ficaram muito enérgicos como se não pudessem estar parados”, “a zanga faz-me ficar com a boca muito fechada e dura!” Ao mesmo tempo, percebe que os pensamentos são legendas das emoções e que é importante identifica-los também.

O João aprendeu que o nosso corpo dá-nos muita informação sobre o que sentimos, precisamos e não queremos. Passa a inspecioná-lo, às vezes até com uma lupa, fantasiando ser um detective de sensações, à caça das emoções. Em casa, com os pais, muda-se o vocabulário, à mesa fala-se sobre o dia de cada um, mas expressam que emoções sentiram ao longo do dia, como as identificaram e o que fizeram para lidar com as mesmas. Sem crítica ou juízo, juntos elaboram soluções alternativas para cada um, e mesmo os adultos aceitam as sugestões do João e do irmão.

O João vem contente, explicar que ajudou a mãe a sentir-se menos ansiosa com a apresentação que ia fazer numa reunião e que parece ter resultado! Ela conseguiu acalmar-se!

Com o tempo, construímos truques para regular as emoções que o João vai identificando e depois treinamos com muita fantasia, teatros incríveis com personagens de outros mundos e do nosso também, a expressão das emoções: não fingir que não se sente mas também não explodir ou fingir que se tem outra emoção.

Ao início é tão difícil,o João encolhe os ombros, diz que nunca se sente triste, que não precisa e mais vale não mostrar aos outros. “Vão gozar comigo. E se chorar?” Mas com o tempo, o treino dos truques para cada emoção: respirar fundo, saber que as emoções não duram para sempre, relaxar, deitar fora a zanga, rasgar papel, desabafar, escrever, riscar, chorar, abraçar, faz com que o João sinta que tem mais controlo sobre si, sobre o que sente, sobre o que o rodeia e que é capaz de lidar com as emoções. Por isso não é preciso fingir que não existem, escondê-las de si mesmo já não é um truque. Porque elas não vão embora assim! É preciso dizer-lhes que as estou a ver, que já descobri qual é e que vou conseguir vencê-la!

Com muita conversa, paciência, carinho e fantasia, o João começa a expressar-se mais vezes dando nome ao que sente, quando fala com os pais, com os professores e até com os colegas. As dores de barriga vão sendo cada vez menos frequentes e quando aparecem, o João já sabe que é momento de se transformar em detective das emoções e perceber o que se passa. Gosto de poder dizer o que estou a sentir, e quando estou muito irritado lembro-me que primeiro é preciso deixar a onda da zanga ir embora. Não fico tantas vezes de castigo! E os meus colegas querem brincar mais vezes comigo! As minhas unhas até estão maiores...

E a felicidade? Estará ele mais feliz? O João celebra-a muito mais vezes, porque permitir que as emoções falem é também caminho para que a felicidade, a alegria e as emoções agradáveis apareçam mais vezes. Está feliz. Sorri, motivado, os olhos brincam e já não precisa de fingir que não sente.

A impulsividade diminuiu, os pais do João contam que é um miúdo mais focado, que pára antes de agir, observa o que pensa, sente e com uma capacidade de tomada de decisão mais consciente.

As explosões de raiva por qualquer coisa diminuíram e embora o João sinta raiva, sabe como regulá-la, porque a identifica, a aceita, trabalha-a internamente e depois expressa-a devidamente. Fica menos ansioso antes dos acontecimentos e quando fica, sabe porquê e só isso já ajuda a que aceite a emoção e desdramatize. Muito admirados, os pais partilham que até os resultados escolares melhoraram e o professor chamou-os para elogiar o João e a sua evolução e dizer-lhes que lhe propôs dar uma aula aos colegas sobre emoções. O João ficou muito entusiasmado e até me veio contar e explicar o que lhes ia ensinar.

Foi aí que deixei a minha emoção falar também e a partilhei com ele, abraçando-o: Estou muito feliz, João! Os teus colegas têm muita sorte por irem receber uma aula tua!

Depois desta história que construí com o João e tantas outras com outros companheiros em que as emoções falam, fica cada vez mais a certeza que o desenvolvimento emocional é a chave de tudo, para toda a vida, de criança a adulto. Ainda há dúvidas?
Feliz, feliz até à pontinha do nariz!

Rita Castanheira Alves
Psicóloga clínica infanto-juvenil e de aconselhamento parental
Autora da colecção infantil Emoções com os títulos Filipe Feliz; Maria do Medo e Zé Zangado
www.psicologadosmiudos.com

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