Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Entrevista ao pai que escreve sobre puns.

Crónica de 08 / 06 / 2017

A editora 2020 perguntou-me se eu teria interesse em entrevistar o autor de histórias infantis, Ilan Brenman.

Eles não sabem mas eu sou uma rapariga que bate palminhas por conhecer pessoas novas... palminhas essas que redobram de intensidade quando a pessoa a conhecer é inovadora e contra-corrente. Portanto respondi, feliz e contente qual criança que ganhou uma moeda para andar de carrossel:

Sim!

Cheguei à Feira do Livro de Lisboa e sentaMO-nos à conversa. Vou-vos transcrever aquilo que, para mim, foram palavras que me encheram a alma. Mas, mais que isso, queria partilhar convosco aquilo que são momentos mágicos:

Eu tinha acabado de escrever esta crónica sobre a minha procura de um caminho na escrita. Mas, à conversa com o Ilan, ele disse precisamente o oposto:

Eu não penso racionalmente nos temas, e é por isso que eles funcionam... eu não escrevo sobre temas que acho que tenham de ser escritos como o feminismo ou a igualdade. Eu acredito neles e educo as minhas filhas nesse sentido, mas o que eu escrevo é a minha arte.

*Eu não quero transformar as crianças num ser humano melhor, quem sou eu? Eu quero que ela se divirta! Tenha um sorriso no rosto e converse com as pessoas.

Porra aquilo fazia todo o sentido... e estes são os momentos mágicos para mim, aqueles que nos transformam. Que causam sinapses de mudança. Que nos fazem pensar. Querer ver para além do que temos visto. Que nos deixa curiosas, qual crianças, por ir novamente à luta e desbravar o mundo. Obrigada Ilan.

Começámos por falar das questões sociais associadas aos puns serem sempre, obrigatoriamente, dos homens, excepto que não são :)

E quando uma criança dá um pum, aquela imagem entre um ser pequeno, frágil, lindo e impoluto entre imediatamente em choque com o cheiro de bomba nuclear que se instala.

Estávamos na sala quando fica aquele cheiro característico... A minha mulher perguntou se fui eu, como se os homens tivessem os dias todos a dar puns. Não fui. E eu perguntei se foi ela e ia levando uma sapatada. Olhámos à volta e só estava lá a minha filha, com 2 anos, com um fato de Branca de neve, linda!, e tinha sido aquela pequena princesa que tinha soltado aquele cheiro nuclear. Para ela não chorar da nossa risada, a mãe pegou nela ao colo e disse não chores, as princesas também dão puns!

O Ilan escreve há mais de 20 anos mas diz que a sua escrita se divide na escrita AP e DP (Antes e Depois da Paternidade) e, sendo traduzido em inúmeros países (desde A Suécia à Coreia) é inevitável perguntar-lhe quais são as diferenças na infância à volta do mundo.

Quanto mais tu pensas no particular, mais encontras o universal. As questões que apoquentam as crianças são as mesmas no mundo inteiro: sonhos e pesadelos, o sofrimento quando os pais se separam, têm ciúmes quando chega um irmão e têm um percurso sofrido para crescer e todas gostam de escatologia em algum momento da vida.

Entrámos então no mundo das emoções e de como às vezes parecemos querer fugir de algumas, como a tristeza.

*A criança tem direito à tristeza. ao medo. os pais têm medo que as crianças sintam medo mas o medo faz parte da sobrevivência do homem porque se ele chegasse à savana e dissesse "olá leão!" era comido de imediato!

E o que acha que os livros podem fazer pelas famílias? Poderão os livros mudar o mundo familiar?

Eu quero que as crianças e os pais leiam boas historias. Parem a correria da vida. Saiam do ecrã e entrem no mundo do papel. O papel da literatura infantil é muito forte pois para a correria e dá sentido à vida: dá memórias. Porque a vida não é mais que memórias. Quando formos mais velhos o que nos lembramos? são as memórias com os pais que vão ficar.

E nós pais? Que devemos fazer? Como podemos intervir?

*Quero que os pais saibam que o que fica na vida são histórias. Quando nos magoamos sai sangue e sai uma história. Há historias de 1ª e de 5ª, são os pais que têm de as distinguir. Porque quanto mais qualidade tiverem as historias mais a criança estará conectada com ela e com a vida, interna e externa, as historias são tão importantes como o bacalhau e a sardinha e a sopa porque são o alimento da alma. Muito mais que o dinheiro, são importantes as historias porque o dinheiro pode ir embora, as historias nunca irão. E são as histórias que tornarão as crianças inteligentes e as crianças inteligentes tomam decisões inteligentes.

Ainda têm dúvidas? Então escutem ;)

Quando alguém um dia perguntou a Mil Gates quem te fez o homem mais rico do mundo ele respondeu "a minha avó". A minha avo contava-me historias quando eu era criança todos os dias e foram estas historias que me permitiram sonhar e o que eu fiz foi sonhar um mundo novo, e foi a minha avó que me permitiu sonhar.

*Esperemos que o Bill Gates tenha conseguido agradecer pessoalmente à sua avó :) Eu só posso agradecer ao Ilan estas memórias que criou em mim. Farão de mim uma mãe mais presente.. no papel e na vida da minha filha <3 Obrigada Ilan!

Não percam este sábado a sessão de autógrafos do Ilan nos stands da editora 2020.

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