Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Depois da calamidade lá fora, olhar para dentro.

Crónica de 20 / 06 / 2017

É impossível não ficar com uma angustia enorme com o que se passou em Portugal nos últimos dias. Por mais que muitos tentem gerir a zanga apontando o dedo a este e aquele, chamando nomes aquele e aquele outro, dizia o MEC e bem: estamos de luto. Ponto.

Mas a angustia fica. e cola-se à pele. Porque tanto, dentro de nós, ficar a ecoar a desgraça dos outros.

Porque quando pensamos bem, eram adultos e crianças, nas suas vidas normais ou de férias. Podia ser qualquer um de nós. Literalmente.

Imagino que talvez os pais tenham ralhado de manhã com os filhos, porque queriam brincar em vez de se calçarem para sair. Porque não comeram a sopa ou porque bateram no irmão que chorou.

Talvez algum pai mais cansado se preferisse distrair mo telemóvel em vez de brincar pela centésima vez com o filho. Ou uma mãe tivesse preferido ficar mais 5 minutos no WC só para ter algum descanso.

Na vida de todos, era um dia como os outros. Um dia comum. Só mais um dia numa vida que já se sabe como vai decorrer. Porque é só mais um dia da nossa vida. É assim que muita gente acordou naquele que foi o último dia da sua vida.

Confesso-vos que essa é a angustia que não me larga: aquela sensação de que desperdiçamos o melhor da vida apenas porque achamos que temos sempre mais vida. Que ralhamos por estarmos cansados mais do que por termos razão. Que brincamos menos que devíamos porque temos a cabeça nas nuvens e não porque os nossos filhos não mereçam.

A angustia que não me larga é esta: será que no último dia da minha vida acordarei grata e feliz? Ou terei a minha mente ocupada com coisa pouca? E me despedirei assim da vida? Chateada por nada?

A angustia, às vezes, são apenas questões que não precisam de resposta.

Mas eu sei que desde sábado que pego menos no telefone. Andei de skate com a minha filha depois do jantar de ontem. Saltei nas poças da praia domingo.

E em todos, todos os momentos, não me esqueci de pensar: obrigada vida, por me permitires ter mais um dia tão normalmente aborrecido nesta vida de mãe. Obrigada vida, por me permitires tê-la mais um dia.

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