Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Afinal o que é isto de ser mãe solteira?

Crónica de 22 / 06 / 2017

Deve ser muito cansativo!

Dizem as pessoas. As pessoas que não são mães solteiras, obviamente.

Confesso que não sei se rio ou choro. Se rio porque não podiam estar mais longe da verdade ou se choro porque... bem, porque não podiam estar mais longe da verdade.

Esta visão parece assumir que ser mãe solteira é uma espécie de banco de horas onde tu trabalhas horas extraordinárias que não te são pagas. As mães trabalham o que lhes pagam, as mães solteiras a mais.

Qualquer mãe ou pai a dias resolvia esta questão diminuindo o número de horas de arrumações, sopas, camas ou birras que fazes por dia.

Estes comentários fazem-me sempre lembrar aquelas pessoas que vão a Marrocos e voltam a dizer que gostam de África, foram a Goa e dizem que adoram a India, ou foram a Nova Iorque e acham que os americanos são uns bacanuchos.

Não, meus caros, não preciso nem quero a vossa condescendência no que toca ao meu cansaço enquanto mãe solteira. Da mesma forma que não têm pena de alguém que, com namorado novo, opta por dormir 2H para poder namorar e dormir, não tenham ela de mim: o meu cansaço vem de uma escolha. Uma escolha de ser feliz. Uma escolha da minha filha ser feliz.

E não é, de todo, o cansaço que incomoda uma mãe solteira. Mas obviamente vocês não sabem isso.

São todas as perguntas que os filhos nos fazem, muitas vezes sem palavras, para saber porque os pais estão separados. E que tu, com todas as palavras do mundo, e sabendo que tomaste a melhor decisão do mundo, não conseguirás nunca responder satisfatoriamente.

São todos os aniversários que os filhos passarão a celebrar a meias, ou juntos fictícia e temporariamente.

São todos os Natais, que dobrarão ou triplicarão de quantidade, mas que não é por isso que trarão maior felicidade aos nossos filhos.

São todas as palavras que terás de trocar para sempre, com alguém que, mesmo tendo ficado teu amigo, preferias deixar de trocar como onde vais passar as ferias, quando vais de férias, ou o que vais oferecer à professora no final do ano.

Ser mãe solteira não é sobre o nosso cansaço. Nem sequer é sobre nós, as mães. É sobre uma história que ficou alterada para sempre e que não é tua. Apenas participas nela.

Ser mãe solteira é carregar uma cruz. Que tem dois braços mas uma só perna. E que, por mais que se aguente de pé, para sempre os teus filhos te olharão a questionar-se como foi quando havia duas pernas. Enquanto tu só podes esperar que chegue depressa o dia em que eles percebam que a cruz não é coxa. Ela é forte o suficiente para se aguentar numa só perna. E é bela exactamente por isso.

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