Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

A mãe que eu sou ...

Crónica de 26 / 06 / 2017

Sabes que mais cedo ou mais tarde tens de mudar essa relação que tens com ela não sabes?

Disse-me alguém, de quem gosto muito e gosta muito de mim, há dois dias.

Como assim?! Respondo. Sem ter a certeza para onde estava a minha amiga a tentar apontar a sua lanterna.

Qualquer dia ela deve passar mais tempo na escola, ou com os amigos, tu não poderás ficar para sempre tão dedicada a ela.

Sim, eu sou uma mãe com muito tempo para a minha filha. Tempo que usufruo. E ela, espero, ainda mais.

Mas a mãe que eu sou, esta mãe cheia de tempo para ser mãe, não é totalmente uma escolha minha...

Eu não escolhi ser uma mãe separada e desempregada.

Eu não escolhi ficar em casa com a minha filha, escolhi sim fechar a minha empresa. Porque na altura em que a Clara nasceu, percebi que as pessoas com quem eu ia trabalhar me tinham enganado. E para continuar a trabalhar tinha de ser uma mãe muito ausente. Pelo que escolhi fechar a empresa.

Eu não escolhi ficar desempregada, escolhi não aceitar empregos que me pagariam menos do que ter uma filha na escola custa. Ao longo destes 3 anos e pouco já enviei muitos CVs. Mas nunca enviei nenhum para empregos que me pagariam tanto quando custa uma escola + transportes + horas extra da escola.

Eu não escolhi ser uma mãe solteira, escolhi apenas ser feliz. A não ser alguém solteiro, ninguém numa relação escolhe separar-se antes de engravidar. O que pode acontecer é, entretanto, descobrires que não és feliz e escolhes separar-te. A felicidade é a tua escolha. A separação, uma consequência.

Não escolhi que a minha filha frequentasse a escola a meio tempo, simplesmente não tinha dinheiro para mais. Penso que é claro. A escolha foi pô-la na escola as horas que podíamos pagar. As outras estaria comigo.

Não escolhi que eu e a minha filha só nos tivéssemos uma à outra na vida. Escolhi sim que ela pudesse sempre contar comigo e que, numa fase difícil da nossa vida - quando fomos viver sozinhas - eu pudesse estar sempre lá para ela. Que daí resulte estarmos sempre juntas, sermos muito apegadas uma à outra e termos uma linguagem muito própria, parece-me inevitável. Porque essa sim foi a minha escolha: nunca lhe falhar.

Não escolhi não recomeçar a minha vida amorosa, escolhi que nenhuma relação valia a pena ir atrás dela. Quando vives sozinha com uma filha, só há uma maneira de conheceres alguém: deixares a tua filha com alguém para puderes ir sair, sem ela. Mas isso reflectia a minha vida diária? Não. Queria conhecer alguém à pressa no meio de falsas horas vagas de vida? Não. Então não procurei. Se voltar a ter alguém, há-de aparecer sem esforço nesse sentido.

A mãe que eu sou é fruto de muitas escolhas que não fiz. Mas uma escolha eu fiz: a escolha de ser feliz. Mesmo com as escolhas que não escolhi.

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