Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Essa moda agora de estar cool!

Crónica de 28 / 06 / 2017

Há uns tempos alguém comentava aqui no blog que, se há uns tempos havia a moda das mulheres bloggers passarem a ideia de que a sua vida era "perfeitérrima, sei lá" agora havia uma igual moda de se ser cool, desligada e de assumir que se "estava bem fosse lá como fosse".

Eu concordo com esta leitora em várias questões:

1) Não há cu para modas
2) Não há cu para blogs de vidas "spé pefeitas, sei lá"
3) Apesar de ser cool ser cool, se ser cool for moda, não há cu que aguente!

Mas para não acabar são aqui, numa mutua concordância que desperdiça aquilo em que a internet é boa (opinar!) vou desenvolver mais:

Acho que já todas sabemos que não existem vidas perfeitas mesmo aquelas pessoas que vomitem permanentemente posts de vida perfeita. Elas sabem. E sabem que nós sabemos. E todos sabemos. Mas também todos fazemos de conta que aquilo resume em si toda a verdade.

A verdadeira questão é que a perfeição começa dentro da nossa cabeça, lá, no cantinho empoeirado do cocuruto. É aí que começa a procura da perfeição da mulher.

Começa em milénios de estigma da dona de casa que faz com que uma mãe, às 10 da noite, depois de trabalhar um dia inteiro, fazer o jantar e arrumar a cozinha, ainda vá preparar a roupa do marido ou dos filhos em vez de abancar o rabo no sofá de pés no ar.

Continua em décadas de conquista de igual valorização profissional, que fazem com que uma mãe, se aperalte de manhã, antes de deixar as crianças na escola, de se fazer à estrada, no transito, para trabalhar horas, e almoçar um tupperware à mesa, para depois voltar para casa na mesma correria. E ainda assim sentir que o chefe acha que lhe paga demais.

E estende-se ainda para anos e anos de projeção da ideia que ser bonita e maravilhosa é tão simples que só uma totó não consegue o que faz com que, cada uma de nós, quando olha ao espelho diariamente, ache que falta ainda qualquer coisinha. Qualquer coisa para sermos, de facto, sempre lindas (antes de por maquilhagem ok?)

Mas antes de tudo isto, nasceu num sítio: a ideia de que a mulher pode e deve ser perfeita nasceu na nossa cabeça. E somos nós, mulheres que o perpetuamos, anos após anos, a fazer de conta que acreditamos que aquela blogger ou pessoa famosa tem de facto uma vid perfeita nós é que não a merecemos, e que certamente a boazona que trabalha lá no escritório e tem mais 10 cm que nós não tem de certeza celulite nem raízes brancas nem calos - a porca! - e é por isso que todos os homens babam a falar com ela, e que, com certeza, se não arrumarmos a roupa toda que cresce a uma velocidade desmedida no quarto dos fundos vai parecer mal ao nosso marido e, certamente, à família dele.

A moda de ser cool, apesar de ser moda, vem trazer à tona uma inversão da imagem da mulher para si própria: eu, mulher, dou voz ao facto de que me estou a cagar barimbar para o que devia fazer, ser ou parecer. E, quando olho ao espelho, gosto um bocadinho mais de mim, por não querer ser perfeita. Por me aceitar como sou.

E quando as mulheres começam a viver de acordo com o que pensam e sentem, em vez de com o que os outros pensam e sentem, a fazer o que querem e não fazer o que não querem, em vez de fazerem o que os outros querem e não fazerem o que os outros não querem, estamos mais próximos de um mundo, este sim, mais bonito.

Porque um mundo onde nos aceitamos como somos, onde gostamos de quem somos e onde vivemos bem com as nossas limitações é um mundo bonito. E também é cool. Mesmo que seja moda. è uma moda cool.

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