Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Porque acaba o deslumbramento maternal

Crónica de 15 / 07 / 2017

Estava a ler um livro onde, de repente, uma expressão me saltou à vista:

É uma característica peculiar dos seres humanos só conseguirem viver a olhar para o futuro.

Vi nesta frase toda a explicação, e alterações, do que sente uma mãe no início da maternidade e do que a mesma mãe sente mais à frente.

O início da maternidade é como uma pedra presa ao nosso pé, a puxar-nos com toda a força e velocidade para o agora, como se o agora fase o fundo do ma, longe de onde andávamos.

Temos sempre a sensação de estar a experimentar algo único, que ninguém mais sentiu, que nos passou ao lado durante uma vida e que estamos, nesse exacto momento, a viver algo transcendental e desconhecido para a maioria das pessoas.

No início da maternidade, nós mulheres, sentimos, expressamos, desejamos, e até respiramos tudo com toda a força do mundo. Com a força de um recém-descoberto super-herói, ou de um recém-nascido.

Com toda as transformações e trabalho que trazem uma vida nova à nossa vida, não há outra altura como esta onde conseguimos tudo, aguentamos tudo, sentimos tudo e sentimo-nos, apesar de toda a fragilidade, capazes de tudo: estamos, de repente, a viver 100% no agora, e a conseguir ouvir a pulsação do mundo enquanto a vida nos corre nas veias.

Mas como dizia V. Frankl

É uma característica peculiar dos seres humanos só conseguirem viver a olhar para o futuro.

E, com o passar dos anos, deixamos de sentir o pulsar do mundo, de estar em uníssono com a vida, há um desligar do agora, e há uma mente focada no futuro.

É perturbador. É cansativo. É exigente.

É aqui que tudo custa de facto. Que a vida parece ter perdido as cores. E que temos pena de não fechar os olhos e sentir aquele cheiro da vida de recém-nascida mamã. Não só na pela mas principalmente na alma. Na nossa alma.

Mas o que gostava de partilhar convosco que voltei a sentir hoje é que é este futuro que guarda o sabor eterno do agora. É o amanhã que dá sentido ao hoje.

É um filho crescido e feliz que nos deve alimentar no cansaço até lá. É um artigo que nos enche a alma que nos faz escrever artigos menos bons todos os dias e é a realização dos nossos sonhos de criança, lá à frente na velhice, que nunca nos devem fazer parar de andar.

O deslumbramento maternal acaba. Para dar lugar ao deslumbramento pela vida. Deem-lhe espaço.

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