Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Biografia de um co-sleeping

Crónica de 20 / 07 / 2017

Na maior parte das conversas de recém-mamãs, o tema do co-sleeping é aceso e anda sempre à volta do amor extremo pela opção versus aversão extrema pela opção.

Como em tudo da maternidade, normalmente, as pessoas não se conseguem ficar com aplicar a sua opinião à sua própria vida e têm de generalizar, extravasar e deixar bem claro ao mundo a sua opinião sobre o que os outros estão a fazer.

Para mim o co-sleeping não foi uma escolha. Não fosse eu pouco dada a certezas. Para mim o co-sleeping foi uma reacção orgânica, de mãe, em várias fases cruciais da minha vida.

O co-sleeping começou na minha incapacidade de amamentar, que deu origem ao que senti como um vácuo na vinculação indispensável nesta fase da vida: o sono da minha recém-nascida tornou-se mais agitado e o meu, consequentemente, também.

As primeiras vezes foram a medo, com receio. Comecei por dormir com a mão dentro do berço. Até ficar com uma entorse. Depois tentei deitar-me de lado para estar colada ao berço. E acordava com as grades da cama desenhadas na minha cara. **Duas coisas eram claras para mim: 1) ela dormia melhor com o meu toque e 2) tinha de arranjar outro plano para isso acontecer antes de ficar enferma.

O tempo foi passando e isto levou a que eu a fosse adormecer diariamente. O cansaço, o sono, o princípio do fim do casamento, leva a que adormecer uma criança se torne numas merecidas horas de descanso para uma cabeça baralhada. E como até já deitas a cabeça na almofada, onde querias que ela ficasse horas a fim, fechas os olhos e lá ficas, no mundo dos sonhos, a descansar, a aproveitar para ver se o sono põe as tuas ideias em ordem, já que acordada não estás a conseguir.

Perto dos 2 anos da minha filha nós separamo-nos e a vida começou numa casa nova. Ela tinha (e tem!) a sua caminha e ate gostava de lá ficar. Só lhe faltava aquele toque humano que tanto gostava (e ainda gosta) e portanto a meio da noite vinha sempre parar à minha cama.

Certa noite, depois de lhe dizer "vamos para a caminha meu amor" olhou para mim e dirigiu-se à minha cama. Eu percebi: se era lá que acordava sempre, porque não lhe dar o direito de adormecer lá?!

Dentro de todas as pessoas cheias de opiniões (sim! elas não desaparecem!) há sempre quem continue a dizer, indignado "não achas que devias obriga-la a ir para cama dela?!"

Se tiverem a mesma curiosidade deixem-me que vos digne: não, não acho. Conheci nestes anos todos, amigos ou conhecidos aqui no blog várias dezenas de crianças que dormem com a mãe ou os pais. Uns sempre dormiram, outros foram lá parar depois, outros só vão lá parar de vez em quando. Não é exclusivo de famílias separadas e muito menos apenas para casamentos recentes.

Obrigo a minha filha a muita coisa, antes que achem que a opção é de escolher a via do combaiê combaiá, obrigo-a a tudo o que, para mim, lhe garanta a segurança dela e a boa educação para com os outros.

Mas não a vou obrigar a isto. Não. Não a vou obrigar a perder um elo que para ela lhe dá segurança. Não a vou forçar. Fazer chorar. Ou dizer nunca mais! Porque, acima de tudo, não acho que ela ganhe nada com isso. Pelo contrário.

Até porque, como certamente já ouviram vários pediatras dizer, ninguém vai para a faculdade a dormir na cama dos pais.

Da mesma forma que não vão a mamar. Ou com chucha. Ou com fralda.

E sabem que mais? Eu acredito. Quem não acreditar tem bom remédio: tem a sua caminha para fazer o que bem entender. E eu tenho a minha tá? Até porque também não quero saber o que fazem na vossa :)

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