Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Esta sou eu com 1 ano. Passaram mais 38 entretanto.

Crónica de 01 / 08 / 2017

Esta foto sou eu com 1 ano. Reza a lenda que foi neste dia e neste momento que comecei a andar.

Esta é, então, a minha última foto sem saber andar. Momento a partir do qual tudo terá mudado.

Não tenho muitas fotos destas, dos momentos marcantes da minha vida, daquelas fotos em que olhas e sabes que tudo mudou a partir dali.

Mas a verdade é que mudou tudo, mudou tanto, ou não tivessem passado mais 38 anos.

Não há nada que nos faça ter mais a certeza que a vida é daquela areia fina da praia, daquele que escorre entre os dedos qual água, do que olhar para as nossas fotos de criança: como? onde? porque é que foi tudo tão rápido?!

Ser mãe parece acalmar um pouco a angústia: eventualmente, os anos que passaram por nós, serão reaproveitados nos filhos, numa espécie de segunda, terceira ou quarta infância.

Ser mãe dá aquela sensação de ver um filme em DVD, onde já sabemos o que vai acontecer, e parece que finalmente conseguimos prestar atenção aos detalhes. Por mais que continuemos sem poder alterar o fim da história.

Quando penso nestes 38 anos, nos sonhos idos, castelos destruídos e reconstruídos, o aprender a esperar, a educar a paciência, penso em tudo o que gostava de dizer à minha filha ao longo dos seus próximos 38 anos. De filmar todos os seus primeiros passos. De a alertar para todas as possíveis quedas. E até mesmo de como é bom correr descalça.

Penso que gostava de lhe dizer quando não vale a pena sofrer. Mas também dar-lhes asas para os sonhos que vale a pena ela perseguir. Gostava que nunca tivesse medo mas se protegesse sempre. Que acreditasse sempre nela mas nunca deixasse de ser humilde.

Quando penso em tudo o que gostava de dizer à minha filha nos próximos 38 anos, percebo que quase tudo são coisas que ainda preciso de me dizer a mim.

Volto a por o DVD. O DVD da minha vida. Vejo e revejo os episódios e as historias. Vejo todos os momentos que gostava de poder reescrever. E os momentos em que fiquei em paz com esses e aprendi a aceitar-me tal qual sou. E a minha vida tal qual ela foi.

Deixo o DVD e volto a esta foto. E penso no quanto a vida é maravilhosa. Porque posso sempre voltar ao DVD quando quiser. Ou deixá-lo a ganhar pó na prateleira. Porque tenho um filme para ver, para sempre, em ante-estreia: o filme da tua história, minha filha. E não há DVD que supere a ante-estreia de um filme.

Apenas desejo que o pó do meu DVD te inspire a dar o primeiro passo com confiança. Para depois caminhares segura na direcção que tu quiseres.

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