Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

E vocês? Também têm filhos White Walkers? (GoT people!)

Crónica de 24 / 08 / 2017

Dizem que os 2 anos são maus, depois que afinal são os 3, já ouvi dizer que os 5 são os 2 melhorados e... por aí fora até uma pessoa se dar por rendida e perceber que, na verdade, a idade das birras é, sensivelmente, desde o dia em que nascem até ao dia em que nos lembramos.

Pode ser que existam filhos muito calminhos e, praticamente, santos na terra, crianças que estão penteadas e sem nódoas no final de um dia de escola, que se sentam num restaurante e ficam 5 horas sossegadas sem interromper a conversa dos adultos enquanto comem a pescada com talheres de peixe, e que não falam nem 0,1 decibéis acima do expectável em público.

Sim, até pode ser que eles existam. A minha filha não é uma delas.

Desde os tais 2 anos que tenho visto as birras a adensarem-se, somando-se, aos 3 anos, a uma capacidade de argumentação e de agilidade física usada para bater com a perna no chão e esbracejar qual demónio zombie digno de um episódio do Game of Thrones.

E, desde os 2 anos, que vejo os olhares de soslaio que adultos me mandam, aqueles que parecem ter a certeza que obviamente o comportamento dela resulta de uma falha na minha educação, que parece ser pouco rígida e ríspida.

Se aos 2 anos eram olhares, rapidamente os adultos transformarem estas formas que sentiram pouco eficazes no meu comportamento de mãe em palavras e frases que vinculavam o facto da minha filha não parecer saída do convento. Não, de facto ela não parece. Aliás, alguns cenários felizmente pouco partilhados em publico, parecem inclusive que ela foi retirada do elenco do Game of Thrones, enquanto uma White Walker ou um qualquer daqueles mauzões que parecem espumar da boca.

Estamos a falar de quase 2 anos a questionar-se se eu seria branda, ou pouco rígida. A subir a voz quando lhe dizia que estava a fazer algo errado. A relembrar-lhe dos possíveis castigos caso usasse contradizer-me. Foram quase 2 anos a sentir que eu devia ser a mãe que o mundo queria que eu fosse para ela poder ser a filha que o mundo queria que ela fosse.

E foi então que chegou o fatídico dia: o dia em que gritou. berrou. Deu murros no chão. Bateu com as pernas. E voltou a gritar com todo o ar que tinha nos pulmões. O dia em que a minha filha se revelou como não um White Walker, mas sim todo um exercito deles.

Eu tinha duas hipóteses: ou reagia com fúria e zanga digna de um exército ainda maior e mais maldoso e rebentava a I Guerra familiar, digna de uma série que roubaria as audiências equivalentes a todas as temporadas do Game of Thrones, ou eu fazia algo novo, diferente, e certamente alvo da crítica dos maiores educadores deste mundo: deixava-a fazer a birra toda que ela quisesse. Felizmente foi o que fiz.

Deixei-a ficar possuída e libertar toda a energia que precisava. via transformar-se num monstro. E depois passar-lhe. para me permitir ver nos olhos dela um agradecimento de ter respeitado a única maneira que encontrou para expressar o que sentia.

Desde então que ela anda muito mais calma. E amorosa comigo. E eu muito mais feliz. E em paz comigo. Mesmo tendo perdendo a autoridade que podia vir da severidade. É que de facto este mundo nem sempre é fácil de gerir. E se não é no seio da família que podemos sentir que o nosso lado mais negro pode ter expressão então onde será? Espero que ela nunca precise descobrir.

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