Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O fim das Crónicas da Maternidade

Crónica de 25 / 08 / 2017

Quem me segue desde o início, sabe que o blog Crónicas da Maternidade começou pela minha surpresa ao me deparar com aquilo que é pirosamente definido como amor de mãe.

Ate então, eu tinha uma empresa, andava todos os dias de saltos altos e maquilhada, nunca tinha um pêlo a mais ou fora do sítio e tinha na liberdade a minha religião.

Fui de tal forma arrebata pelo amor de mãe que tudo se desmoronou à minha volta. Desmoronou-se para que pudesse voltar a ser construído com base na minha nova pessoa: alguém despido de artifícios sociais, alguém à procura de estar sintonizada apenas com o seu coração.

Foi de tal forma o impacto na minha vida que não trabalho há quase 4 anos, separei-me, e as únicas constantes na minha vida nestes anos foram a minha filha e este blog.

Escrever foi-me permitindo dar solidez ao que era a minha nova vida, aos sentimentos que pareciam fracos dentro de mim mas ficavam fortes cá fora, e dar algum sentido a uma vida que agora passava totalmente ao lado dos cargos de directora e Dra. que tinham acompanhado toda a minha vida até essa altura.

Ter um blog preencheu-me também parte do vazio profissional. E talvez fosse eu mais dada a manter nesta nova vida a mesma necessidade de agradar que tinha antigamente, e escrevia-vos mais sobre águas com sabor disto e daquilo, detergentes com cheiro daquilo e daqueloutro, e sobre quão supimpa é este ou aquele iogurte.

Mas a verdade é que sendo este o local que encontrei para ser tudo aquilo que nunca fui, eu mesma sem ter de agradar a ninguém, decidi manter-me fiel a isso mesmo. Melhor dizendo, manter-me fiel a mim mesma.

Passaram-se 4 quase anos. Os anos em que mais cresci na minha vida, verdade seja dita. Os anos em que voltei a acreditar nos meus sonhos e que nunca se deve deixar de sonhar. Mas também os anos em que, sem peso no coração, aprendi a virar a página quando uma qualquer experiência já não contribui significativamente para algo, interno ou externo. E há uma causa incontornável: a de pagar as minhas contas. A de pagar as contas da minha filha. A de me sentir plena, ao suportar, financeiramente e a solo, a minha vida e a da minha filha. Com as capacidades intelectuais que tenho. E com o orgulho intacto.

Recebi uma proposta de trabalho há uns meses que era deliciosa: voltar a ser directora de algo. Havia um senão: tinha de emigrar. A minha primeira resposta foi não. Como podia eu ir para longe de uma vida que construi a tanto custo?! Afastar-me desta vida já despojada de excessos e factores excentricidades? Desta vida tão centrada naquilo que é de facto importante para mim? O amor?

Passados uns meses percebi que, na verdade, eu estava apegada às coisas erradas. Porque o papel do apego é algo que compreendi bem nestes anos que me obrigaram a desapegar-me. Ainda assim aqui estava eu: apegada a uma vida. Apegada ao medo de largar tudo (que é nada!) que tenho e começar novamente do zero.

Falei com quem tinha de falar para perceber se podia aceitar. E aceitei. Aceitei começar novamente do zero. Com a minha filha. Com a força que se pode ter depois de teres recomeçado tantas vezes: pouca... Mas com aquela coragem que só tem quem já só decide com a alma: toda...

As crónicas da maternidade vão acabar no formato que começaram: com a descoberta de uma mãe do que era viver só de amor. Vão continuar, num novo formato: na redescoberta de uma mãe da mulher capaz que tem dentro de si.

Penso que hoje deixo isto por aqui :) Vamos finalmente uns dias de férias para a semana. Mas prometo continuar aqui, a escrever diariamente, antes e depois de ir.

As Crónicas da Maternidade passarão a ser as Crónicas de uma mãe em vias de emigrar e depois as Crónicas de uma mãe trabalhadora emigrada. Mas para quem nunca saiu daí, seremos sempre as Crónicas da Maternidade: pois foi a maternidade que me mostrou do que sou capaz: de tudo por ela. De tudo por mim. De tudo, na verdade.

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