Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Eu sou a avó que a leva de férias

Crónica de 30 / 08 / 2017

Viemos de férias as duas. Uma semaninha, no Algarve, numa casa para onde já venho há mais de 30 anos.

Já cá estive com ela duas vezes. E, se querem que vos digue, eu devia estar possuída por um espírito perdido de uma freira com tendências maternais porque a quantidade de sacos, saquinhos e saquetas que eu trazia e as horas que passava na cozinha a cozinhar eram de tal ordem que dava imediatamente acesso a um lugar VIP no céu. Assim bem ao lado de Jesus e tudo.

Este ano mudou tudo: uns sapatos para cada uma. Uma roupa de praia. Outra de noite. Hambúrgueres. Douradinhos e Macedonia. Só para não dizer que a miúda não vai comer vegetais durante uma semana.

A minha filha tem o azar de não ter avós com idade, proximidade geográfica ou disponibilidade de a trazer de férias. Mas tem uma grande sorte: a de ter uma mãe que tem. E que não se importa nada de fazer de avó também.* Até porque a mãe teve uma epifania daquelas parecida à do polvo Paul: ela viu para além da realidade! E constatou algo fenomenal: que além da filha, a mãe também vinha de férias!*

Proteína? Fiz 4 hamburgueres de uma vez. E comprei douradinhos. Se sobrar do almoço, come ao jantar. Se sobrar do jantar, come ao almoço de amanhã.

Sopa? Macedónia cozida no primeiro dia. Aquilo esta tão cheio de legumes como uma sopa juliana.

Fruta? Da grande ou em pacotes. Para encher ou poder comer à beira da piscina.

Hidratos? Batatas congeladas e em forma de smile. Quem disse que a comida não podia ser divertida?

Gelados? Um ou dois por dia. Nem sabe o bem que lhe fazia.

Televisão? Enquanto a mãe põe a comida no microondas. E mais um bocado depois se lhe apetecer.

Banho? maioritariamente para lavar os pés que a catraia anda descalça 24H por dia e à noite tem assim uma goma preta na sola que também não há necessidade de levar para a cama.

Bendita a freira cujo espírito desceu em mim. Pois a rapariga apesar de freira era dada à diversão, a marota.

A verdade é que os meus quase 40 anos me fazem ter algo melhor que a teoria: a prática. E ver que a minha avó, que come pão, bolachas e doces carregados de ovos, é mais rija, magra e saudável que muitas jovens que se pelam por só comer uma folha de alface, biológica, sem glúten e lavada com água de rosas com ph alcalino.

Porque a minha avó, além desses "disparates" gastronómicos, só come carne de animais que foram "felizes", legumes das hortas dos vizinhos e fruta da época que nasce nas árvores ali ao lado.

Além disso, eu sei que o melhor das férias são as memórias do que não se faz o ano inteiro. O melhor das férias são a limpeza da alma. Limpeza esta feita com disparates, asneiras e desculpas de "só mais uma vez".

E estas memórias, que duram uma vida, que nos inspiram e fazem crescer e apaixonar só são boas se forem assim mesmo: cheias de "só mais uma vez".

Porque "só mais uma vez", "só mais um gelado", ou "só mais um mergulho" é, sem qualquer dúvida, um lugar bem melhor para deixar na memória da minha filha. Bem melhor que, certamente, a memória da mãe fechada todas as férias na cozinha a cozer brócolos biológicos a vapor em água da fonte.

Assim, quando eu um dia for velhinha, e lhe disser com a energia que me sobrar: "filha leva-me a passear, só mais uma vez" espero que ressoem dentro dela as memórias deste verão. E que, nesse passeio, possamos comer gelados cheios de porcarias enquanto nos rimos de quando saltávamos em cima da cama, cheia de migalhas do pequeno-almoço."

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