Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

A primeira vez sem ti

Crónica de 31 / 08 / 2017

Por várias razões que não são o motivo desta crónica, hoje será a primeira noite que passo sem ti.

(Bom, na verdade é a segunda mas na primeira eu estava num bloco operatório para me retirarem o apêndice. E fiquei só uma noite porque disse que de outra forma fugiria.)

Sabias e falámos. E foste sentindo várias coisas ao longo dos dias que fomos conversando. Mas hoje, quando chegou a hora de te ires embora, dirigiste-te contente até mim, eu disfarcei as minhas lágrimas, e tu deste-me um grande abraço, viraste-me costas e foste embora.

Não te consigo descrever o que senti. Mas sei que fiquei extremamente orgulhosa. De mim, se queres saber. De mim por te ter educado inteira, quando eu muitas vezes não o era.

Saíste porta fora e enchi-me do vazio que adiei sentir nestes quase 4 anos. Mas não te culpes querida filha, este vazio é antigo, muito antigo a ti, é um vazio talvez tão antigo quanto eu. Tão antigo que eu sabia que estava lá, sem precisar de olhar para ele nestes quase 4 anos.

Reencontrar-me com o meu vazio foi confortante sabes? A verdade é que há quase 4 anos que eu não estava comigo. Estar sozinha contigo é a maior benção da minha vida. Mas também o meu maior desafio.

E os vazios são quem nos leva a mudar. A melhorar. A corrigir a trajetória. A evoluir. Aprender. Chorar para seguir em frente. E por isso a tua mamã nunca receou abraçar o vazio.

Educar-te mas mimar-te. Cuidar de ti mas também de mim. Ser paciente sem querer ser perfeita. Querer estar lá sem ser mãe helicóptero. Ensinar-te as boas maneiras. Sem nunca deixar de ser aquela com quem as perdes. Fazer de ti uma pessoa inteira, nunca esquecendo que todos somos incompletos. Ainda assim felizes. Sempre e só felizes. Foram assim estes anos. Que culminam neste dia: o dia em que te revelas sólida. Corajosa. E segura de ti o suficiente para nunca olhar para trás.

Não, não foi sempre fácil. E ainda assim também não é fácil ver-te sair porta fora. Mas é importante que saibas que custa ser as pessoas que queremos, mais do que ser só quem já somos.

Porque sou a pessoa que mais te ama no mundo. E isso significa amar-te para que ganhes asas e voes. Sempre segura de ti. Como o fizeste hoje. Estou orgulhosa de ti. De mim. E de nós. Agora vai. E nunca deixes de voar. A mamã estará sempre aqui. As lágrimas são de alegria.

(entretanto liguei-te e a primeira coisa que fizeste foi chorar com saudades minhas... chorei eu também. Isto de fazer o certo não é fácil pois não meu amor? Choremos as duas. Façamos o certo as duas.)

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