Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Dessa cena chamada desapego

Crónica de 05 / 09 / 2017

Nestes 39 anos de vida mudei de casa 18 vezes. Sim, dezoito.

Como devem imaginar, aquela coisa a que se chama apego já resolvi há uns bons anos: cada mudança de casa me fazia desapegar fácil e velozmente de uma série de objectos!

Uma das principais mudanças deu-se quando me mudei para Lisboa, no centro, perto de tudo!, e em 60 m2. Não estão bem a ver o desapego que pratiquei: foram caixotes e caixotes de desapego que não cabiam no meu novo e solarengo apartamento!

(OK vou confessar: ainda assim aquela belo apego da mulher aos trapos da Zara, e a comprar só mais uma blusa porque eu não tenho roupa! só resolvi anos mais tarde, quando fui mãe e fiquei desempregada.)

O facto de a minha vida ser despojada do apego a objectos não me impediu de arranjar ao que me afeiçoar, não fosse eu mulher: apeguei-me às pessoas.

Às pessoas? Bah, toda a gente se apega a pessoas! deram vocês.

Só que não meus queridos, só que não como eu.

Eu sou aquela que faço amigos (sim, amigos!) em todos os prédios onde vivo. Que sei o nome da filha da Sra. da padaria, que vou à janela perguntar à velhota do prédio da frente se já está melhor da perna, e que atravesso o jardim de propósito para cumprimentar aquela velhota que faz agora 97 anos. Eu sou viciada em pessoas. Mais precisamente, em conversar com elas e transformar qualquer conversa num abraço, físico ou emocional.

Num mundo que me mostrou há muito que nada é para sempre, eu descobri que algo pode ser: a sensação boa que te dá sentires-te ligado a outro ser humano. E apeguei-me. Apeguei-me à ideia de que basta aproximares-te de pessoas, de coração aberto, para resolver todo e qualquer problema do mundo.

Tudo isto para vos dizer que a parte mais difícil de decidir emigrar foi aceitar deixar as minhas pessoas. Aquelas que me ajudaram a reconstruir o meu mundo quando me separei e fui viver sozinha com uma criança para uma vila nova. Aquelas que regularmente me ligam ou aparecem para me dar um abraço. Aquelas que me permitiram perceber que começar do zero custa muito menos quando se tem alguém com quem partilhar a vida nova.

Quando há 2 anos me separei e vim viver sozinha com a minha filha, podia ter apostado um mindinho no que seria o futuro. E teria perdido esse mindinho. A vida foi em tudo diferente do previsível. Em tudo foi nova e surpreendente, excepto na mobília comprada em 2ª mão.

2 anos volvidos, em vias de começar uma nova vida de novo, do zero, e ainda mais longe, quase preferia estar apegada aos objectos: comprava novos. As pessoas que nos enchem o coração, não.

Mas foram essas mesmas pessoas a mostrar-me que apego e desapego não estão nos sentimentos que nos impedem de agir, mas sim na coragem que não nos impede de seguir. Pelo que, com todo o apego que tenho por elas, desapego-me da vida que me ajudaram a construir, e escolho ir para longe, onde certamente a mais pessoas me apegarei. Já só falta a mobília!

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