Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Mas de onde vem a coragem para deixar tudo e ir?

Crónica de 06 / 09 / 2017

No ano passado fiz um curso que me lavou a alma: um dos formadores falava sem papas na língua, dizia asneiras e ria-se. E eu pensei: afinal vale a pena voltar a aprender: ainda há muita gente sem mofo para me ensinar algo!

Ele contava a história da sua irmã, que vivia na Alemanha, tinha 3 filhos, uma carreira estável, vivia num bairro familiar há 15 ou 20 anos, e ia mudando de carro ou de casa consoante o número de filhos ia crescendo.

E perante a vida que a irmã levava ele perguntava-lhe: como é que consegues? como é que consegues lutar constantemente para que a tua vida não mude? deve dar imenso trabalho a evitar que a vida aconteça!

E é também assim que eu me sinto: esforçamo-nos uma vida para criar segurança, esse sentimento que nos parece prometer que tudo vai correr bem. Casar, emprego certo, comprar casa. procuramos sentimentos de segurança acima de tudo porque queremos evitar algo: a sensação que, na verdade, não controlamos nada e tudo pode acontecer.

Isto para vos dizer que muito mais coragem precisaria eu para ficar. Manter a vida fixa, presa com ancoras ao fundo do mar. A obrigar-me permanentemente a lutar contra a maré. Que esforço isso exigiria de mim...

Se ir com as ondas é um acto de fé muito maior? Sim. Se é essa a natureza da vida? Sim. Porque como qualquer engenheiro sabe, até a maior e mais sólida ponte do mundo só o é porque mexe com as marés. Só é sólida porque não é estanque.

Ficar seria tentar criar a vida à imagem de uma fotografia: estática. Ir é acreditar que a vida se assemelha mais a uma viagem de comboio: a beleza da viagem está no contínuo das imagens, e não na singularidade de cada uma delas.

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