Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Ela ficou doente. Eu vi a luz.

Crónica de 03 / 10 / 2017

Uma semana em casa. U-M-A semana foi o que ela teve de ficar em casa para recuperar. Fechadinha. Sem sair. Nem para apanhar ar.

Se manter uma criança em casa um dia pode ser tortura, mantê-la uma semana é das coisas mais agressivas que já vi.

Para um adulto, pois está claro. Pois elas, as crianças, lá vão esbracejando, mudando de sítio todos os brinquedos, tapetes e livros e abrindo todos os armários, e roupeiros e gavetas.

Para um adulto, pois está claro. Pois as crianças, doentes, coitadas, podem comer na sala, deixar migalhas no quarto e limpar o ranho no sofá.

A maior tortura de uma criança doente em casa é para o adulto que lá fica, prisioneiro, a cuidar da comida e da limpeza, da brincadeira e das birras, de ser mãe e enfermeira, e ainda de tentar ser um anjinho que consegue um lugar no céu se sobreviver a esta semana do demo.

A certo momento olhei para ela. Já íamos no 4º dia. E eu já estava a rebentar. Mas não ela.

Ao 4º dia fechada em casa, ela inventou novas brincadeiras e trouxe o tapete do quarto para a sala. Como era um puzzle, colocou-o ao comprido e começou a fazer corridas.

E eu fiquei ali, a olhar para ela a divertir-se no mesmo sítio, com os mesmos brinquedos, como se tudo fosse novidade. Fiquei ali a olhar para ela e vi a luz: afinal, está tudo na nossa cabeça.

E assim ela conseguiu mudar o rumo dos restantes dias aprisionadas em casa, mostrando-me que se olharmos com amor para as coisas, mesmo as do costume, tudo pode ser novidade. Que não precisamos de algo exterior para sorrir, mas que os sorrisos vêm de dentro. Que toda e qualquer história tem apenas uma leitura: a que nós quisermos fazer dela.

Todas as histórias podem ser boas ou más. Quem decide somos nós.

E foi assim que, na 6º feira, num dos milésimos banhos da nossa vida, fomos as duas para a banheira, ligámos o iPad, e fizemos a festa.

Ela ficou doente. Mas fui eu que vi a luz. Que ela não precise de mais febres para nunca se desligar.

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