Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O que vai na cabeça de uma mãe que vai emigrar?

Crónica de 10 / 10 / 2017

A data está a aproximar-se. Aliás, já está definida e começa a ficar perto.

O Gandhi que há em mim durou até aqui calma: a rotina inalterada. Sem dramas. E com os prazeres e regras de sempre. Parecia que ia conseguir chegar ao fim sem ansiedade. Só que não. Não seria eu se não transformasse o Gandhi dentro de mim numa espécie de Gandhi-diva-emocional.

Voltaram as insónias. E acordar à noite e ficar horas a divagar no futuro tão próximo. Horas de nada, porque o futuro não se adivinha a não ser nos bolos da sorte, horas que só aumentam o cansaço do dia a seguir.

Depois volto à rotina. Carrego um cado mais no ginásio. fecho-me um pouco em casa e tudo acalma de novo.

Confesso-vos que estou bastante entusiasmada com voltar a trabalhar. Não trabalho há 4 anos e tenho, naturalmente, medo de falhar. Mas a adrenalina de voltar a estar na crista de uma onda, de poder planear, fazer acontecer, e sentir a energia que sai de cérebros pensantes é elevada.

Hoje li algures que mais vale ter um falhanço que nos torna humildes que um sucesso que nos torna arrogantes. E eu profissionalmente já dei tanto trambolhão que não tenho como não ser uma pessoa diferente. E quero conhecer essa pessoa em quem me transformei. Depois de ter somado 4 anos em casa com a minha filha aos trambolhões: quem serei eu agora? Estou muito curiosa por conhecer.

Mas emigrar não é só voltar a trabalhar depois de 4 anos sem trabalhar, fechar uma empresa que me fez perder muito dinheiro e uma carreira errante onde nada me satisfazia.

Emigrar é sair do meu porto seguro, a minha casa. A casa que construí, ainda frágil, quando me separei para mim e para a minha filha. A casa que escolhi com o coração. Que mobilei com o OLX por não ter mais dinheiro. Onde, às cegas, eu e a Clara começámos uma vida nova que desconhecíamos. Caraças, que deixar de ter casa sabe a salto no escuro para o infinito...

Emigrar é também pensar em malas... Porra, não são umas férias que se te esqueceres das calças brancas que combinam com o top amarelo paciência. Não. Roupa. Sapatos. Brinquedos. Medicamentos. Objectos chave... quais são dois objectos chave???!

(Calma. Calma, Patrícia.)

Até porque ainda tens de pensar nos contratos todos a cancelar. Telefone, água, luz, internet.

Despedir-te da família (os meus avós estão tão velhotes...). Dos amigos (os meus pilares, e agora?!) e da escola da Clara (ela está tão bem onde está... e se não fica lá?!)

E também em arranjar uma casa lá. E fazer todas as consultas antes de ir. E gerir a ansiedade de quem fica.

(Ufa....)

Não te canses já miúda, digo-me a mim própria. Tens de chegar lá, apresentar a vida nova à Clara, desfazer malas, apresentar-lhe a nova escola, conhecer o teu novo emprego, e rezar... rezar muito para que este reset que fizeste à vida das duas seja mais parecido com um dia solarengo de sol que com um dia tempestivo de inverno.

O emprego novo vai-me enviado informação para eu me ir enturmando. E eu ponho toda a nova informação na lista de espera. Deixo apenas passar à frente aquela pequena sensação de te perguntares se vais mesmo ser capaz.

(Respira fundo. Tu vais conseguir. Tens de conseguir.)

Toda a minha vida gostei de ler. Muito mesmo. E sempre que me sinto perdida lembro-me dos livros que me marcaram mais.

Eu sei que os saltos de crescimentos são difíceis pois tirar os pés de um sítio que parece seguro custa mais do que saber que do lado de lá está, eventualmente, algo bom. Sei que a ansiedade vem de não estarmos no presente, mas sim a tentar adivinhar o futuro, em todas as suas possibilidades, variantes e diferentes opções.

Mas sei acima de tudo que as histórias têm todas um final feliz. Porque deus protege os audazes. É assim, pelo menos nos livros que leio. Até porque eu só acredito em finais felizes. E é assim que estes dias são mais fáceis do que parecem.

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