Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Mães, carreiras e dinheiro. Um puzzle lixado.

Crónica de 11 / 10 / 2017

Nunca fui uma pessoa de carreira, confesso.

Tive muitos empregos, alguns muito bons empregos até, mas quando percebi que me queixava mais do que usufruía, abri a minha própria empresa para poder fazer as coisas como acreditava em vez de responsabilizar terceiros pela minha insatisfação.

Com o tempo percebi de onde vinha a minha insatisfação: é que não é na carreira que eu me realizo como pessoa. Não, pelo menos, numa carreira que passasse por passar os dias enfiada num escritório com um condigo de roupa que não me diz nada.

Ah, e tal, tu não gostas é de trabalhar.

Não é verdade. Gosto de acordar cedo e passar o dia todo na rua. Pode ser jardinagem. Arte ou cozinha. Gosto de ler. De falar com pessoas. Gosto de conhecer o mundo.

Pois, mas isso não paga contas!

A malta anda melhor que o Einstein a adivinhar as perguntas mais complexas do universo hein? :p

A minha vida tem-me mostrado que existem vários tipos de pessoas: as que gostam de trabalhar e dizem que é porque precisam do dinheiro, apesar de nunca terem tentado viver com menos; e as que trabalham para pagar contas, e que costumam normalmente sofrer porque quando não se gosta do que se faz muitas vezes não se consegue fazer nada.

Abdicar de trabalhar para ser uma mãe que fica em casa com a filha foi das melhores decisões que tomei em toda a minha vida. Que se revelou também das mais difíceis: o que é que vales quando não fazes nada que seja óbvio mostrar aos outros que tem valor?

Estar em casa durante quase 4 anos fez-me perceber mais sobre mim e sobre a vida que os 35 anos que os antecederam: ser mãe foi a minha carreira mais longa e onde fui mais feliz. Foi também a que me obrigou mais a mudar, duvidar de mim e tornar-me humilde: "You know nothing john snow" podia ser o mantra destes anos.*

Quando tu és o unico adulto com quem convives tens de aprender a conviver contigo. Com o bom e o mau. E quando tu és o único adulto com quem convives e se dá o caso de estares desempregada tens de aprender também a conviver com os olhos que os outros põem sobre ti: estás sozinha mas está toda a gente a olhar para ti. Agora bora lá fazer um número de circo que dê audiências!

Passados quase 4 anos, além de precisar desesperadamente de ganhar dinheiro, voltei a sentir falta de algo que sempre me fez muita companhia durante toda a vida: a reflexão.

Nao sinto falta de uma carreira no sentido de ser reconhecida ou sair de casa de manhã como quem vai para um casamento. T O D O S OS D I A S!!

NÃO. Sinto falta de reflectir e pensar a meias com outros adultos. Sinto falta de acreditar que posso contribuir para um mundo melhor e trabalhar nesse sentido. Sinto falta de encontrar soluções. De ver resultados que não dependem só de mim. E sinto, também, confesso, alguma vontade de poder chegar a casa e contar à minha filha as vidas que a mamã ajudou a mudar, enquanto ela me conta as palavras em noivas que aprendeu em inglês.

O que acho que gostava de partilhar é que a vida é como um bolo: os melhores têm vários ingredientes, ainda que quanto mais simples, melhor. A maior parte de nós precisa de dinheiro para viver. Mas todos somos muito mais que uma carreira, um reconhecimento social. Ser mãe mostra-nos que nada no mundo vale mais que o amor. E que, por isso, o bolo perfeito, a vida, tem acima de tudo tempo e espaço para quem amamos, com umas pitadas de trabalho e dinheiro para completar a receita.

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