Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2017

Ser as raízes da árvore. Onde pousas antes de voar.

Crónica de 17 / 10 / 2017

Há dias que me sinto parada no tempo. Parei no tempo depois de ser mãe. E lá continue depois de me separar. Ou assim parece. Às vezes.

Inicialmente foi maravilhoso: deixar de trabalhar, absorver cada segundo com a minha filha, cheira-la, observa-la, conhece-la mais do que ela se conhece a ela própria.

Depois veio o divórcio. Ou saber que as coisas não estavam bem. O ter a certeza que tinha de fazer algo mas não sabia o quê.

Estava desempregada quando me separei. O que foi muito complicado: ia eu conseguir tomar conta de mim e da minha filha, numa casa nova, vida nova, sem trabalho?!

Fui-me guiando por aquilo que ser mãe me ensinou: o foco. O foco no que não se vê. A intuição de como deve ser. A fé em que se pode chegar lá. E a esperança que o hoje seja apenas o caminho para um amanhã.

Há dias maus. Outros bons e maravilhosos. Mas a fragilidade de estares desempregada e sozinha com uma criança ninguém ta tira.

Parte das pessoas vai tentar lamber rapidamente as suas feridas: sair à noite, arranjar namorada ou namorado, mudar de vida. E rapidamente a sua vida parecerá recomposta. Sólida. Afinal, sararam rapidamente as feridas que tinham a olho nu.

Mas ficar focada, nesse amanhã que não se vê, permite uma coisa: sarar as feridas que ninguém vê. E permanecerás frágil. Delicada. Mas com a certeza que sobrevives a tudo.

Verás nos sorrisos da tua filha a gasolina que precisas para continuar. No abraço que dão à noite no sofá a certeza que o que é importante na vida tu estás a dar-lhe.

E nesses momentos percebes que não estás parada. Estás só a criar raízes. As raízes da árvore onde os pássaros que voam pousam.

Nesses momentos percebes que todos os troncos que se partiram, deram lugar a uns mais fortes. Que todas as folhas que voaram, foi para darem lugar a flores.

Nesse momento percebes que não faz mal estar parada. Não faz mal ser frágil. Pois são assim as árvores. Onde os pássaros pousam na primavera. Se abrigam no inverno. E cantam no verão.

Mais Crónicas:

-->