Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Tralhar

Crónica de 23 / 10 / 2017

Nesta fase de desfazer casas, fazer malas, desfazer e refazer vidas, não há como não pensar quanto significado damos a tralhar. A enchermo-nos de tralha.

Tralhamos histórias e emoções.
Tralhamos pessoas.
Tralhamos memórias e restos de papeis.
Tralhamos as finanças e a segurança social.
Tralhamos fotos. Postais e desenhos dos filhos.
Tralhamos roupa.
Tralhamos sapatos.
Tralhamos lágrimas e sonhos adiados.
Tralhamos zangas.
Tralhamos pratos, copos e porras esquisitas de servir à mesa.

Tralhamos porque não lhe chamamos tralhar.
Tralhamos porque, ao tralhar, achamos que estamos a aumentar qualquer coisa na nossa vida. A tapar qualquer sítio onde antes estava um buraco.

Mas a única coisa que a tralha faz é entupir a nossa vida. O que nos apercebemos assim que temos que destralhar.

Destralhar é das actividades mais purificadoras que existe. Porque, da mesma forma que tralhar nos dá uma ideia de peso, de raízes, também destralhar nos dá uma ideia de libertação, de leveza.

Ao estar a destralhar a minha vida pela vigésima vez, não tenho como não sentir alegria: tanta vez já mudei de casa e de vida, que tenho pouco mais que o essencial.

Desfazer uma vida, mesmo que para a refazer noutro lado, é algo que obriga a tantas encontros e reencontros, tantas emoções perdidas e sonhos imaginados, a tantas peças "onde estavas com a cabeça quando compraste isto?!", a tanto medo pela forma como os anos passaram a voar, que quando o fazemos rapidamente e sem grandes surpresas percebemos que, cada vez mais, estamos a aprender a viver no momento. E os momentos têm pouca tralha.

Fotos do 1º namorado. Fotos de nós próprios com menos 20 anos. As notas das cadeiras do 12º ano. As roupas que vestíamos quando achávamos que vamos ganhar muito dinheiro. E a roupa que vestíamos quando achacamos que íamos ser bus cool. Os poemas que escrevíamos na adolescência. E a bola de ténis que apanhamos em Miami e guardámos porque fomos felizes nessa viagem. Ainda que não passe de uma mera bola de ténis, apanhada com alguém que já não faz parte da tua vida há mais de 10 anos.

Tralhar também nos enche o coração. Mas é lá e só lá que deve ficar a tralha. Numa espécie de baunilhas, poeirento, que não ocupa espaço, não pesa, e só se abre quando se quer. E, especialmente, que não se carrega quando tem de se mudar de país.

Passei uma vida a encher-me de tralha. Especialmente emocional. O que muito me apraz: levo tudo comigo agora que mudo de país. Porque tudo o que levo vai comigo no meu coração. (A miúda vai mesmo sentada ao meu lado mas essa já paga o seu bilhete de avião :p)

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