Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Sou uma mulher. Frágil, sim. Fraca, não.

Crónica de 24 / 10 / 2017

Toda a vida vivi com a minha mãe.

Mãe essa que sempre foi e é uma mulher muito à frente do seu tempo: sempre me disse que aos 18 anos eu iria estudar para fora (de casa, leia-se! :)) e que não devia nunca perder de vista a autonomia financeira.

Paralelamente, havia outra figura feminina no meu quotidiano: as minha avó. Mulher mais tradicional, que não percebe porque as cuecas têm cada vez menos pano e as relações cada vez menos tempo de duração. Ainda assim, outra mulher que leva tudo à frente ainda agora nos seus 80 anos.

Cresci num ambiente feminino. Rodeada especialmente de mulheres. E sei, hoje em dia, que o mundo é diferente para mim por causa disso.

Na minha cabeça, o mundo era feito de determinação. De vontade. E de igualdade. Na minha cabeça, as mulheres podiam tudo o que quiserem. Na minha cabeça, o mundo em que vivemos era outro.

Comecei a viajar sozinha aos 16 anos e a viver sozinha, num país estrangeiro, aos 19. "Lá fora" era normal as pessoas casarem tarde, viajarem sozinhas, e falarem de "igualdade".

Demorei muito tempo a perceber a minha fragilidade: a perceber que não, eu não era igual aos homens.

Demorei muito tempo a perceber que nas famílias tradicionais há regras hierárquicas. Que uma mulher viajar sozinha é e será sempre alvo de real preocupação. E que numa relação amorosa, a probabilidade de esperarem de ti que sejas mais parecida com a tua avó do que com a tua mãe é grande: é muito fixe viajar mas o jantar não se faz sozinho, miúda!

Com o tempo, tenho aprendido que só sou feliz desde que percebi que a igualdade não é sermos iguais: a igualdade é contribuirmos de igual forma, para um fim comum, cada um à sua maneira.

Esta conclusão não foi fácil. Porque me obrigou a assumir e aceitar que sou frágil. Sim, serei, muito provavelmente mais frágil que um homem "médio". Sou mais frágil fisicamente. E sou mais frágil emocionalmente. E é esta fragilidade que perpetua a cultura de violência e pressão sobre as mulheres.

Sou uma mulher. Frágil, sim. Mas fraca, não. Porque a força que tenho em mim é superior à minha fragilidade. Que só me mostrou que, desde os tempos da minha bisavó, que as mulheres têm na fragilidade a origem da sua determinação, resiliência, e agilidade. Que sou me mostrou que ser frágil continua a poder levar-me onde quiser. Porque o que importa é nunca deixar de ir atrás do que se quer.

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