Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Este país não é para velhos

Crónica de 27 / 10 / 2017

Ontem cruzei-me nas escadas do meu prédio com uma senhora que faz cá limpezas em várias casas.

Contou-me que se ia reformar porque a lesão que tinha no braço não estava a ser tratada apesar dos meses de fisioterapia. E que apesar de não parecer, tinha 60 anos, e 46 de serviço.

Perguntei-lhe como estava o meu vizinho da frente, senhor de 80 e tantos anos, que vive sozinho mas gosta de ir jantar fora todos os dias pelo que muitas vezes fica a dormir a meio das escadas pois já não tem força para subir.

Está mal ele - disse ela - mas não aceita ajuda de ninguém. O problema é de facto quando deixamos de ser úteis: toda a gente desaparece.

Fiquei com aquela frase gravada na cabeça: será que é quando deixamos de ser úteis que toda a gente nos larga?

Entrei uma vez na casa do meu vizinho apesar de o ajudar várias vezes a trazer as compras pelos 3 andares de escadas. Tem um mural na parede da sala, pintada por ele, contou-me, para as netas, com desenhos do antigo Egipto. Nunca as vi cá. Tem outra parede com livros de uma ponta à outra e do chão ao tecto.

Lembro-me de ter ficado a pensar que vida já terá ele tido. Na altura em que podia contar, descrever e narrar histórias no tempo livre que lhe sobrasse. Agora está definitivamente velhote. E com uma vida que não passa disto: sair de casa para jantar. Voltar e ter dificuldade em subir as escadas.

Mas velhote é uma palavra que não posso dizer muito alto. Pois que os meus avós, de 86 e 80, não me deixam usar e ainda me batem se a usar para os descrever a eles.

São como meus pais pois foram avós muito novos. E por isso mesmo aproveitaram para fazer tudo comigo o que só se pode fazer com os netos: viajar, passear, contar-me histórias.

Como se recusam a envelhecer, fazem almoços - de vários pratos! - bebem vinho, conduzem, viajam, fazem bolos. E ainda costuram as peças que mandamos para lá. Como se recusam a envelhecer, são ainda o apoio de muitos de nós. E, talvez a senhora nas escadas tivesse razão, são úteis.

Ontem fui almoçar com eles. Como vou várias vezes. Pensei porque haverá tantos velhotes sozinhos. Pensei porque as pessoas abandonam que nunca os abandonou. Pensei que os meus avós são, acima de tudo, meus amigos, com quem ainda rio e contamos piadas.

Pensei, acima de tudo, que este país não é para velhos. E deus nos livre e guarde de deixar de ser úteis: e poder descobrir que pode ser a solidão a única companheira que se tem no fim da vida.

Pensei também que sorte têm os meus avós. Não só não são velhos como são, acima de tudo, meus amigos. E os amigos, ao contrario dos avós, não se abandonam. Pois não?

Fica a dica: já ligaram aos vossos avós hoje?

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