Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Um blog sobre nada

Crónica de 30 / 10 / 2017

Estava este sábado na praia quando pensei em partilhar no blog a maravilha que é estar na praia no final de outubro.

Felizmente o meu cérebro não estava de greve e rapidamente me lembrou que, além de mim, estariam outros milhares de portugueses na praia.

O que eu iria partilhar não era a última Coca-Cola do deserto. Mas esta vida das redes sociais parece ser um constante estar em bicos de pés a dizer “Olhem para mim! Olhem para mim!”

Tenho sido contra essa postura. Contra a postura de tudo mostrar e tudo postar. Por várias razões, que não só as éticas ou as da minha filha não ter escolhido ter a sua vida exposta. A principal sendo que ao estar sempre agarrada a um telefone a querer mostrar o que vivo, não o vivo em pleno. E muito menos passo à minha filha a ideia de que a vida é o que se vive e não o que se partilha.

Depois da praia fui jantar fora. E voltei a ter a mesma sensação: posso falar sobre o que estou a fazer. Ou então só fazê-lo.

Este estar onde permanentemente se partilha o que se faz, que se parece fazer tanto, ir a tanto sítio festa e actividade, experimentar tanto restaurante, cremes ou fatos de banho sexy, dá a entender que quem não faz nada disto, não tem vida.

O que não podia estar mais longe da verdade: vive-se muito quando apenas se contempla. E vive-de ainda mais quando se contempla sem gritar ao mundo: “olhem! Estou a contemplar uma coisa que é o máximo!”

Esta minha mais recente vida, a vida de separada, tem sido das melhores de todas as minhas vidas. E tem-no sido pelo seguinte: porque me obrigou a aprender a viver na ausência de tudo o que me entretinha.

Sem dinheiro para jantares, cinemas ou cabeleireiros. Sem maneira de passear sem filha. Sem ter como sair de casa depois das 9 da noite ou almoçar depois do meio dia, sempre em casa, os meus dias eram monótonos.

Os meus dias eram até bastante monotonous, diria. Mas a vida da minha cabeça não era: eu contemplava tudo - A minha filha, o pôr-do-sol, o frango na panela, com total felicidade: a felicidade de quem tem tempo. E serenidade. Mesmo que seja para deixar a cebola refogar meia hora.

Ninguém faz um instagram de uma cebola a refogar. Muito menos uma insta story de um belo almoço de sábado as 19.30 em casa.

Mas se eu conseguisse partilhar convosco a felicidade que pode conter uma alma de uma vida onde nada se passa, não pensariam duas vezes antes de seguir on blog sobre nada. Nada, pelo menos, que se veja a olho nu.

Porque as melhores coisas do mundo não se veem. Muito menos num ecrã de telefone ou computador.

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