Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Tic Tac, Tic Tac: entrou a contagem decrescente para a viagem. E a ansiedade crescente também.

Crónica de 06 / 11 / 2017

Não sei bem quantos meses andou na minha cabeça a dúvida: ia ou não aceitar a proposta de trabalho que queria muito mas que me obrigava a sair de Portugal?!

Acho que foi em Maio ou Junho que comecei a contar às pessoas mais chegadas que tinha tido esta oferta.

Foi em Agosto que aceitei a proposta.

E acho que em Outubro que marquei a passagem.

Contei à Clara que já sabe que vai mudar de país, mesmo que talvez isso ainda não faça o sentido verdadeiro para ela. Ainda assim, ela está "na boa".

Combinámos que íamos ter um cão, que foi uma maneira de quer eu quer ela podermos dar já nome e corpo ao que vamos ganhar, tentando esquecer o que vamos perder.

Comecei a fazer as malas antecipadamente. A marcar todas as consultas necessárias. Documentos, papeis e medicação necessária.

Tudo foi tratado a tempo, com a calma possível, e com as paragens necessárias pelo meio para respirar: fosse uma ida ao ginásio, uma meditação com phones, ou um jantar com amigos.

Tudo estava a ir de acordo com um plano perfeito. Até há à semana passada: a semana em que se começa a tornar óbvio que esta vida que construí com tanto amor e carinho, esta vida que comecei sozinha, com a minha filha, depois que me separei, esta vida onde voltei a construir os meus portos de abrigo, a encontrar os meus momentos de silencio, a aprender a ser mãe solteira, esta vida tem os dias contados.

Tem esta vida. Tem a vida nesta casa. Têm as fotos nas paredes da nossa viagem a Paris. Têm as roupas dobradas já sem pensar qual a gaveta em que as devo colocar.

Sou, de vez em quando, assaltada pela ansiedade. A ansiedade de quem já saltou de um lado do precipício onde, a mal ou bem, tinha os pés assentes no chão. A ansiedade de quem já saltou e, está em pleno voo, lento, até ao outro lado, e consegue estranhamente sentir que não esta neste momento em lado nenhum. Mas que também não é altura de ter medo por não se ter nenhum dos pés em terra firme.

Nova casa. Novo país. Novo clima. Novo continente. Um emprego que não tenho há 4 anos. Uma filha para ajudar a sentir-se segura no meio de todas estas novidades que ainda me deixam a mim insegura. Para lhe apresentar tudo isto, e uma escola nova, e uma vida nova. Para lhe apresentar tudo isto mas, quando ela olhar para mim com aquele ar curioso que lhe é característico, apresentar-lhe isto tudo com a certeza que vai tudo correr bem. Porque vai.

Ontem, no meio de uma conversa onde finalmente alguém tem finalmente a coragem de me perguntar se não tenho medo da minha reacção, rio, para dentro e respondo que não. Eu não tenho medo. Só tenho ansiedade. Mas medo não: eu sei que já tudo correr bem.

Se cada um de nós tiver uma missão na vida, ou um caminho, a minha missão é mostrar a quem me rodeia que podes sempre mudar e recomeçar. Podes sempre voltar a rir. A fazer amigos. A construir um lar. Porque na verdade só há uma coisa que dita o final feliz das histórias. E essa coisa és tu.

E esta é a minha missão há quase 40 anos. Por isso consigo rir para dentro e ter a certeza que tudo vai correr bem. Mesmo que a ansiedade faça parte do processo. Afinal estar em pleno voo entre 2 continentes, entre 2 vidas não é para pussies :p

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