Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

E que raio de trabalho vou eu fazer?!

Crónica de 07 / 11 / 2017

Tenho falado muito sobre o que vou fazer mas ainda não disse o que é: basicamente vou voltar à área que me viu nascer como profissional, a área da ajuda humanitária.

Trabalhei em ajuda humanitária mais de 15 anos. Geri hospitais no meio do mato, fui voluntária em hospitais pediátricos, trabalhei em emergência médica, geri projectos de reconstrução de hospitais pós-tsunami e várias intervenções na área do HIV.

Sou uma rapariga de acção e do campo mais do que da secretária. Mas infelizmente muitas vezes na nossa sociedade começa-se pela secretaria.

E também lá comecei eu.

Mas dada ao impulso e à perseguição dos meus sonhos (característica também passível de ser chamada de teimosia) perto dos 30 anos comecei a meter as mãos na massa naquilo que eu acreditava ser contribuir para um mundo melhor.

Vi muita coisa horrível. Uma criança de um ano morta e a ser comida por formigas. Um homem morto por um elefante. Um homem morto de sida, que contaminou toda a sua família. Uma mulher morta, no meio da rua, já nem sei de que. A mordida de uma criança com hiv.

Cheguei ao fim da minha capacidade de contribuir mais para um mundo melhor quando, querendo levar um senhor que viria a morrer para o hospital, nenhum dos directores me emprestou o seu carro.

Comecei a trabalhar na comunicação e sector privado: eu queria passar a deitar a cabeça à noite na almofada e dormir! Mas não era isso que me esperava: é que se eu achava que o sector humanitário não tinha escrúpulos, nada como 8 anos no sector privado para ver o que significa de facto essa expressão.

Fui mãe, deixei tudo. E na verdade achava que nunca mais conseguiria acreditar que se pudesse encontrar satisfação no trabalho.

Ser mãe ensinou-me a amar. E foi a ser mãe que aprendi que o amor não é só um conto de fadas mas é um projecto que se gere, se melhora, se corrige, se usufrui!

Só podia usar todo o meu conhecimento numa área: naquela área que um dia me fez acreditar que podemos construir um mundo melhor.

Vou voltar a ajuda humanitária. Com mais 8 anos de sector privado. E uma filha.

Porque se não é uma mãe que pode lutar por um mundo melhor, então ninguém é.

Nada pode motivar mais alguém do que contribuir para que o mundo que verá a minha filha crescer seja, pelo menos, 1% melhor.

E talvez, tal qual o Sidartha dizia, todas as voltas que a vida dá são as voltas certas para nos levar onde precisamos de estar.

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