Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Desenferrujar a solteirice

Crónica de 08 / 11 / 2017

Sempre fui uma rapariga roliça e bem disposta. Associação simpática que permite que uma rapariga mais curvilínea (leia-se gorda) não deixe de ser interessante pois vem com outros atributos: a simpatia e boa disposição!

A boa disposição é algo fantástico: é algo que faz com que não penses muito em como atrais pessoas: amigos, amigas, namorados, conhecidos, amigos coloridos... a vida social de uma pessoa bem disposta faz com que ela não pense muito em como conhece pessoas novas: ela simplesmente conhece!

Contudo, com tanta mudança na minha vida, uma das coisas que ficou afectada foi exactamente esta: a oportunidade de conhecer pessoas (do sexo oposto, leia-se) novas. Conheci vizinhos, falo com o padeiro, conheci a familia alargada. Homens? Népia. Nickles batatoides: a vida de uma mulher doméstica que só sai de casa para ir buscar a filha à escola e brincar com ela no jardim não é uma vida que tropece muito em homens. E nos que tropeça são acidentes de percurso: um pai casado com as crianças no jardim, o carteiro, o amigo de longa data malandro de quem a malta até já prefere fugir do que ter aquele pseudo elogio e aumento de auto-estima.

Estou separada há 2 anos e, não me achando uma mulher feia nem desinteressante, tornei-me numa solteira enferrujada. Que é assim um misto entre uma teenager que nunca teve um namorado, e uma cota que já não tem um há 500 anos.

Se conheço alguém que gosto, fico envergonhada. Se não gosto, viro logo costas. A minha solteirice enferrujou a um ponto que eu percebi que isto não tem nada a ver com andar de bicicleta: muita queda havia eu de mandar se não fazia nada por isso!

Decidi começar com um alvo fácil: um amigo de uma amiga que está caído por ela. Quem melhor para testarmos os nossos soft skills do que alguém que vai ser simpático porque quer que intercedamos a seu favor, sem que nunca nos venha a dar um não ou nós a querer um sim?

Essa primeira tentativa foi óptima. Voltei a ser tagarela e conversadora, sem qualquer receio da consequência dos meus actos: eu só queria praticar, e aquele alvo não ia fugir!

O segundo nível foi mais difícil: o rapaz era de facto giro! Mas eu andava só a treinar e portanto o desafio agora era conseguir ter uma conversa com lógica e sentido, sem gaguejar, tropeçar ou me enfiar corada debaixo de um banco. Estava na sportzone a experimentar uns ténis e a coisa foi bastante divertida: ajudando-me a calçar os ténis, aquilo teve assim um momento de Cinderella desportiva de tempos modernos. Não comprei os ténis e vim-me embora: eu tinha ganho muito mais que um par de ténis: eu tinha descoberto que ainda conseguia ter uma conversa com mais ou menos lógica com um rapaz que eu achasse giro!

O terceiro nível devolveu-me as gargalhadas: uma conversa normal com alguém do sexo oposto, sem pensares muito em nada. Num jantar de anos, sentada ao lado de um rapaz, ri, dei gargalhadas, fiz piadas, e diverti-me. Não pensei se ele era giro ou feio. Não pensei em me enfiar debaixo da mesa com vergonha. Não pensei se ele era o carteiro :) Pensei apenas que estava num jantar cheio de pessoas divertidas. E que eu me estava a divertir.

Não estou ainda curada. Aliás, estamos a falar de alguém que ainda não conseguiu mais do que isto: dar, numa conversa num grupo de pessoas, diversas gargalhadas.

E daí, talvez isto seja como andar de bicicleta: onde, quando somos jovens e inocentes, não nos importamos nada de dar umas quedas, desde que nos consigamos rir disso.

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