Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2017

1383 dias de maternidade. 1365 dias de crónicas. 1 última crónica escrita em Portugal.

Crónica de 09 / 11 / 2017

Esta será a minha última crónica escrita em Portugal.

Mas vais deixar de escrever no blog? Muitas pessoas já me perguntaram. Não, não vou. Será apenas a última crónica que escrevo em Portugal nos próximos tempos.

Como podem ver, tenho quase tantos dias de mãe como de blogger. E posso mesmo confessar que ambas me trouxeram vários prazeres e dores de cabeça nos últimos anos :)

Escrevo há 1365 dias sobre os meus 1383 dias de maternidade. E, tal como a maternidade, ser blogger tem sido um percurso cheio de dúvidas, incertezas, frustrações mas, acima de tudo, muita dedicação, prazer, e fé :p

Podia ter começado a escrever sobre qualquer coisa, mas fi-lo sobre ser mãe. Depois deixei de trabalhar e passei a escrever sobre ser mãe "doméstica". Depois separei-me e passei a escrever sobre ser "mãe doméstica e solteira".

Confesso que houve vezes que tive muita dificuldade em partilhar aqui o que sentia: foi verdade no meu processo de separação e verdade agora no meu processo de decidir emigrar.

Nestas alturas sei que as minhas crónicas se tornaram menos transparentes, menos claras, menos apaixonadas. A verdade é que toda a minha energia estava focada em processos mentais que, podendo parecer paradoxal eu acho que não é, não me sinto à vontade de espelhar aqui.

Essa sempre foi uma das minhas lutas como blogger: sendo que "isto" começou por ser quase que uma porta aberta para o coração, mente e alma de uma recém-mamã, quando o assumi como projeto tive de me posicionar em relação a várias questões.

Por exemplo, apesar de me expor, nunca me quis expor demais nem às pessoas que me rodeiam.

Por exemplo, apesar de ter querido muito, durante algum tempo, fazer disto uma profissão, nunca tive muito cu paciência para dizer que este produto lava assim ou assado, que aquele deixa os cabelos assado ou cozido ou que aquele vestido rodopiante que a minha filha (não) veste é da marca X ou Y.

E essa foi outra fase difícil, para mim, enquanto pessoa que escreve aqui todos os dias: houve alturas que medi o meu contributo em comparação com o de outros blogs.

Houve momentos que achei que ia ser blogger e conseguir viver disto. Depois percebi que não ia conseguir viver disto. E aí achei que devia deixar de ser blogger. Depois da expectativa, a desilusão e depois a frustração.

Mas como o blog tem tanto tempo como a minha maternidade, ele beneficiou da aprendizagem maior que a maternidade me trouxe: nunca procures resultados definitivos. Foca-te apenas da dedicação.

E assim fui continuando a escrever. Mesmo quando não me apetecia tanto. Mesmo quando, se fosse sincera, vos diria que só me apetecia chorar.

Agora fiz finalmente as pazes com tudo. Que, tal como a maternidade me ensinou, é algo a aproveitar porque não dura para sempre :)

Resolvi a questão do dinheiro conseguindo um trabalho, que - coincidência ou não - surge também na sequência do meu trabalho como blogger.

E isso permite-me voltar ao ponto de partida: ao ponto onde eu procuro ser apenas uma porta aberta para o coração, mente e alma de uma, não recém-mamã, mas uma pessoa que passou os últimos 1383 dias a aprender a ser mãe, os últimos 39 anos a aprender a ser mulher, e os últimos 1365 a escrever sobre isso.

Como não deixarei nunca de querer aprender a ser melhor mãe, e uma mulher feliz, continuarei certamente sempre a escrever aqui. Apenas não em Portugal, nos próximos tempos.

No outro dia alguém comentava o que ia acontecer a todas estas gerações que não têm álbuns de infância para olhar e lembrar de como foi ser criança. Aqueles álbuns velhos, sem cor, e roupas foleiras que todos os pais vestirão sempre ao olhar dos filhos. Fiquei feliz por nunca ter deixado de escrever: a minha filha terá aqui, os seus álbuns de infância. A minha filha terá aqui aquilo que é indispensável a qualquer memória de infância feliz:

Ó mãe! Como é que me deixavas sair à rua com aquela roupa?!

:)

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