Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Já vos disse que existe uma culpada de eu estar aqui? Chama-se Cátia.

Crónica de 15 / 11 / 2017

Acho que me basta ser mulher para não parecer maluca quando digo que gosto da conversa de signos.

Não entro muito em detalhes mas basicamente há certos signos que me atraem e têm-no quase todas as pessoas à minha volta. Outros que nem por isso.

A Cátia, educadora da minha filha em Portugal, foi alguém de quem sempre gostei, não fosse além de ser de um dos signos que me percebe, mas também muito parecida comigo em algo: ambas umas grandes tagarelas :D

Sozinha em Lisboa com a Clara, falava muitas vezes com ela sobre os meus receios e dúvidas, as minhas esperanças e anseios.

Quem me segue sabe que houve uma altura que eu pensei que o blog poderia tornar-se a minha fonte de rendimento e entre um curso de coaching e umas idas à televisão, eu tinha a certeza que ia por todos os meus ovos nesse cesto. Ainda bem que não sou uma galinha :p

Fui falando sempre com a Cátia, às vezes única adulta das minhas conversas diárias. E um dia disse-lhe que me tinham feito uma proposta de trabalho excelente mas implicava emigrar. E eu achava que isso não ia ter estofo para recomeçar uma vida outra vez e retirar a Clara da vida onde ela estava finalmente sólida.

A Cátia, rapariga tagarela mas precavida, não me disse logo nada. Até eu dia que eu disse que não ia considerar a proposta.

Foi quando ela me falou dos sonhos que retiramos aos filhos quando desistimos dos nossos sonhos. Das aulas de ballet que não podemos pagar porque não temos dinheiro. Das idas ao teatro ou cinema que não podemos oferecer porque o dinheiro não chega. Das viagens e cursos e experiências a que temos de dizer que não, simplesmente porque o dinheiro não chega.

Falou-me de crianças que não puderam seguir os seus sonhos porque os pais não podiam pagar. Falou-me das vantagens de falar várias línguas num mundo cada vez mais global. E então perguntou-me.

Perguntou-me se eu não tinha a certeza que ao ficar, lhe retirava mais chão do que ao viajar.

Comecei a pensar e olhar para trás. No que os meus pais me proporcionaram e no que fiz com isso. No que o dinheiro paga, desde seguros de saúde ou viagens ou auto-caravanas. E no que me custou, enquanto mãe, as vezes que tive de escolher cuidadosamente o que comprava no supermercado para que chegasse para pagar água e luz.

Não tem só a ver com o facto de eu ter uma licenciatura e mestrado, um percurso profissional desafiante ou até a experiência de ter a minha própria empresa. Não. Porque tudo isto eu larguei sem pensar duas vezes para ser uma mãe doméstica que apoia, acima de tudo, a minha filha a partir de casa.

O dinheiro não compra a felicidade. Mas, como já dizia o outro, ajuda. Não sei o que a Clara fará com as oportunidades que acredito assim poder proporcionar-lhe. Mas a minha função de mãe é proporcioná-las.

Correndo tudo bem, sobram uns trocos para eu relaxar de vez em quando numa praia paradisíaca ... e fazer um brinde à Cátia ;)

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