Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

Sobre o primeiro dia de trabalho. Sobre mim e os outros.

Crónica de 20 / 11 / 2017

E assim começou a minha vida nova e o meu primeiro dia de trabalho.

Acordei às 5.30, com o cão a chorar e fui buscá-lo. Quando somos do género de mimar, mimamos sempre... deixei-o contudo na cama pouco tempo pois sei que era algo que me iria arrepender. Mas deixei-o o tempo suficiente para ver aquela imagem, eu a Clara e o cão numa vida que parecia tão distante até há pouco tempo atrás.

Já estava sol e confesso que a energia, tal como o sol, já ia alta e fui passear um pouco pela casa.

A primeira palavra que me veio à cabeça foi poucaxinho.

É estranho que precisemos de voltar a trabalhar para sentir que por vezes os outros nos dão poucaxinho mas a verdade é que naquele momento em que estamos solteiras, somos mães, e temos um trabalho, percebemos que os outros têm de acrescentar algo à nossa vida, porque de outra forma nós estamos bem, obrigada.

Senti que nós, as mulheres, podemos tudo. E isso não é bom. A minha geração, a geração que foi educada a ser independente, a estudar, a trabalhar e fazer carreira, mas ainda sem se desculpar de não casar e ter filhos à moda antiga e muito menos de ter homens semelhantes à nossa volta, é uma geração de mulheres solteiras.

Poucas mas boas! Solteiras mas felizes! Etc etc de ditados e frases feitas. Podemos sem duvida ser felizes. Mas seríamos ainda mais se não tivesse havido lá na origem um chip bipolar, um chip que nos faz querer tanto ser mães e mulheres como ser directoras e gestoras.

O meu sentimento hoje é de alívio: eu estou agora mais auto-suficiente. Eu estou agora mais ciente de que afectos não se mendigam. Eu estou agora mais forte. Mais capaz. Mais independente. Mais sozinha.

Há um lado meu que tem saudades de estar mais disponível. Mais frágil e dependente. Porque o outro lado, este novo que se chega a si próprio, sabe que quando podemos tudo, então queremos tudo.

E este é, para mim, o maior desafio da mulher da minha geração: poder tudo. querer tudo. aprender a ser feliz com menos.

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