Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O bom de um verdadeiro melodrama no feminino

Crónica de 05 / 12 / 2017

Ontem, perto da hora de ir para a cama, já com aquele início da birra de sono, olhou para mim, começou a fazer beicinho e disse:

Mamã, tenho tantas saudades da Cátia! e desatou a chorar.

A Cátia era a educadora dela em Portugal, de quem já falei aqui.

Azar dos azares: eu tinha acabado de pegar num papel que a amiguinha dela Inês, filha de uma das minhas melhores amigas Joana, tinha desenhado para a Clara e escrito "vou ter muitas saudades tuas, Clara, volta rápido" o que me fez eu própria ficar cheia de saudades da Joana e das minhas pessoas, daquelas pessoas que nos preenchem os dias simples, os bons e os maus, as pessoas com quem damos gargalhadas e choramos e então... então também eu desatei a chorar.

Pronta para fazer uma birra, ou pelo menos para partilhar as suas emoções, a minha filha não estava preparada para que eu também quisesse fazer uma birra.

Quando me viu a chorar, só me tinha visto a chorar uma vez quando foi internada, pegou nas suas mãozinhas pequeninas e começou a fazer-me festinhas na cara, a limpar-me as lágrimas.

Chorámos as duas enquanto ela limpava as minhas lágrimas. Chorámos as duas pela primeira vez desde que chegámos. Pelo que ficou. Pelo que não veio. Pelas saudades que temos. Pela ansiedade que é recomeçar uma vida e começar tudo de novo.

Naquele momento, em que ambas deixámos de ser fortes ou sorridentes, naquele momento aconteceu para mim o que de mais bonito tenho na relação com a minha filha: sinceridade de desarmamento.

Quando acabámos de chorar, disse-lhe que eu sabia que era difícil. Também o era para mim. Que eu procurava lembrar-me de tudo o que temos de novo aqui, e não esquecer que tudo o que deixámos lá, não perdemos. Está lá à nossa espera.

No fim virou-se para mim e disse: sabes mamã, eu gosto muito da minha escola nova. Virou-se para o lado e adormeceu.

A verdade é que, em tudo na vida, para deixar entrar o novo, temos de deixar sair o velho. E como tudo o que sai de nós, já esteve em nós, este é sempre um processo que custa. Fazer de conta que não é não poder seguir em frente.

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