Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2017

O melhor de voltar a trabalhar? Saber que não sabes nada.

Crónica de 06 / 12 / 2017

Trabalhei em ajuda humanitária durante mais de 10 anos, sempre na "linha da frente", aquela linha que é responsável por implementar os projectos que mudam a vida das pessoas.

Reduzir o número de novos casos de HIV!

Baixar o número de novos casos de malária!

Controlar a epidemia de cólera!

Deixem-me que vos diga: trabalhar na linha da frente não é para todos. Porque dormir à noite sabendo que a métrica do nosso sucesso é quantas vidas salvámos é uma grande merda cena.

Quando sai da área da ajuda humanitária comecei a dedicar-me à comunicação, mais precisamente, a eventos. Gostava que o meu sucesso fosse medido por palcos montados, lonas expostas, número de visitantes e outras métricas assim simples e pouco perturbadoras do meu sono.

Dos eventos surgiu naturalmente o design. E do design rapidamente evoluímos para o universo digital, onde acabei por encontrar a minha praia: escrever.

Esta conjugação de design com escrita, misturado com produção dá-me uma segurança bem maior nas métricas anti-insónias: não há vidas a salvar, apenas tarefas a executar.

Quando a vida me permite juntar estes dois grandes amores, a ajuda humanitária e a comunicação, a vida tem-me mostrado acima de tudo uma coisa: que eu não sei nada. E ainda bem: é porque ainda tenho muito para aprender.

Nesta minha nova função tenho de aprender sobre agricultura e agricultura de conservação, sobre a economia rural e a economia de escala rural, sobre a relação entre novos casos de HIV e a vinda a casa de grupos de trabalhadores migrantes, sobre o papel de cursos práticos na vida de raparigas jovens à mercê de serem vendidas a homens, sobre o impacto de um pequeno lanche na permanência na escola das crianças pequenas, sobre como acrescentar cenoura a papas infantis baixa os números de sub-nutrição infantil, ou sobre como uma jovem mãe solteira de 23 anos, com 2 filhos, com apenas um curso de costura, pode criar uma actividade económica que lhe permite sair de casa dos pais que a venderam aos 12 anos.

A minha função agora é ajudar a comunicar os resultados de quem tem a coragem de mudar estas vidas. A minha função agora é estar sempre a aprender como se faz para mudar o mundo. A minha função agora é comunicar e divulgar as vidas que foram melhoradas, poupadas, e recuperadas. E é tão bom poder falar de tudo o que estava mal e agora está bem neste mundo.

O melhor de voltar a trabalhar é aprender. Aprender e ficar a saber que é de facto possível contribuir para um mundo melhor <3

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