Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

O que mudou na minha vida, de desempregada a directora de comunicação.

Crónica de 14 / 12 / 2017

Nos últimos 2 anos e picos, desde que me separei, passei de mãe solteira desempregada a, agora, directora de comunicação.

Se querem saber, todos estes processos de mudança foram tranquilos. Com todas as dificuldades inerentes.

Quando me separei, estava desempregada há 2 anos, desde que havia fechado a minha empresa. Separar-me teve obviamente um custo elevado, desde montar casa, abrir novos contratos, comprar móveis, ainda que no OLX.

Escolhi uma casa onde pudesse aproveitar todos os momentos que não podia fazer mais nada: já que o dinheiro não chegava para mais nada, escolhi viver ao pé do mar e de um jardim infantil para puder sempre brincar na rua com a minha filha.

As contas foram grosseiras. No meu excel, eu que ainda tinha a mania que era uma gaja que sabia fazer contas, não sobrava dinheiro nem para o seguro do carro, quanto mais para contas avultadas de farmácia, dignas de qualquer mãe de criança num país com invernos.

Lembro-me que passei aproximadamente 6 meses sem ir ao cabeleireiro. O que pode parecer um numero fútil até eu vos dizer que 60% dos meus cabelos são brancos... e eu havia feito um alisamento nos meses antes de me separar, como faz qualquer pessoa fruto de um mundo corporativo: quando não sabes o que fazer, gastas dinheiro e depois logo se vê. Nada de errado não fosse o meu cabelo ser ondulado.

Quando entrei no cabeleireiro lembro-me da Cristina, onde vou desde aí, olhar para o meu cabelo e dizer: nada a fazer, temos de começar do zero.

Nesta altura não comprava queijo nem fiambre. A proteína eram ovos e carne ou peixe pescada.

Não me afastava muito de casa para não gastar gasolina.

E quando me diziam que a Clara estaria mais adaptada na escola se ficava mais que meio tempo, sempre tive vergonha de dizer que eu não tinha dinheiro para isso, pois já era o pai que cobria sozinho essa parte.

Claro que não sou órfã e sempre tive apoio mas havia um apoio que eu não queria: o apoio a quem estava, ainda assim, orgulhosa por ter escolhido o caminho mais difícil: o caminho certo.

Nesta altura, até antes da Clara ir para a escola, onde estava sozinha com ela o dia inteiro, cozinha, lavava, arrumava. Numa certa altura até cortei parte do dedo. Brincava, passeava. Esfregava e estendia. Nesta altura existiram dias que, só porque sou dada ao sentido de humor, gozava a dizer que o que mais sentia falta do casamento era da ajuda.

Nesta altura existiram dias difíceis. Mas foram todos felizes. Simplesmente porque a felicidade não se mede em graus de facilidade.

E acho que era aqui que queria chegar: à altura em que vos conto tudo o que mudo desde aí, até agora, que sou directora de comunicação, tenho 2 pessoas em casa para me ajudar, e vim viver para um país onde vive a minha mãe, que me preparou todo o terreno.

O que mudou de mãe solteira desempregada a directora de comunicação com empregada foi absolutamente nada. zero. Rien. Nickles batatoides.

Porque esse tempo mágico da minha vida, onde pus o certo antes do fácil, e esse tempo mostrou-me de que material sou feita: do mesmo que todo e qualquer ser humano. Lave ele escadas. Ou conduza um carro que lhe parece grande: somos todos fortes. Somos todos frágeis.

(acontece, inclusivamente, haver mais dignidade em quem lava escadas do que em quem conduz carros grandes)

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